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26 de set. de 2011

Campanha Nacional pelo Autismo no País





Graças ao apoio da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência-SNPD, estamos dando inicio à primeira etapa da proposta de uma campanha nacional pelo autismo no país.

Esta primeira etapa compõe-se de um evento com capacitação em análise do comportamento, ministrada por profissionais com experiência nos Estados Unidos no atendimento a todo o espectro do autismo e por uma importante troca de experiências entre instituições brasileiras que trabalham com autismo.

O nome deste evento é a Campanha Nacional pela Assistência e pelos Direitos da Pessoa com Autismo que ocorrerá nos dias 21, 22 e 23 de Novembro de 2011, no Auditório do Hospital Cruz Azul na Rua Lins de Vasconcelos, 356 em São Paulo.

O programa do evento inclui 3 partes:

1. Fundamentos técnicos do atendimento ao autismo de nível leve, moderado e grave.

2. Fundamentos da organização de uma instituição para o atendimento ao autismo.

3. Troca de experiências entre as associações presentes.

Este evento será totalmente gratuito com alguns critérios adotados com o objetivo de distribuir as vagas.

Preste muita atenção, pois eles deverão ser rigorosamente seguidos.

1. As inscrições para Campanha Nacional pela Assistência e pelos Direitos da Pessoa com Autismo serão efetuadas a partir de um cadastro das instituições interessadas, aberto especialmente para este fim.

2. Só aceitaremos o cadastro de instituições. Não aceitaremos o cadastro de pessoas físicas.

3. Cada instituição poderá cadastrar até 5 profissionais.

4. Para efetuar o cadastro é obrigatório que a instituição responda e envie para a AMA (para o e-mail centrodeconhecimento@ama.org.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ) Questionário “Levantamento Nacional pela Assistência e Pelos Direitos da Pessoa com Autismo”.

5. O cadastro poderá ser feito até o dia 14 de Outubro de 2011.
6. O cadastro será feito no site da AMA, http://www.ama.org.br/  Para formalizá-lo pedimos uma contribuição solidária de R$ 10,00 por profissional cadastrado e é obrigatório o preenchimento do questionário pela instituição.

7. Atenção: o valor da contribuição solidária não será devolvido em nenhuma circunstância, incluindo a condição da instituição não ser selecionada.

8. A AMA fará a seleção dos inscritos sendo que na medida do possível será selecionado ao menos um representante de cada instituição cadastrada. Em caso da necessidade de desempate fica estabelecida a seguinte ordem:

1. Instituições filantrópicas e sem fins lucrativos que atendem apenas autismo.

2. Instituições filantrópicas e sem fins lucrativos que atendem também autismo.

3. Instituições particulares que atendem apenas pessoas com autismo.

4. Instituições particulares que atendem também pessoas com autismo.

ATENÇÃO - Há uma grande possibilidade de conseguirmos ajudar a custear uma passagem e três diárias para cada uma das 50 primeiras instituições cadastradas e localizadas fora do Estado de São Paulo. Este é um projeto que apresentamos ao Governo e cujo resultado deverá ser conhecido no inicio de Novembro.Será contemplado o maior número possível de instituições, em detrimento do número de profissionais por instituição.

O resultado do processo seletivo será divulgado até 30 de Outubro de 2011. As instituições serão informadas por e-mail e deverão confirmar a inscrições dos profissionais aprovados.

Em caso de dúvida, favor ligar para (11) 3376-4401 e falar com Ieva.

Fiquem atentos a esta oportunidade e apressem-se, pois as inscrições só irão até o dia 14 de Outubro.


Acredito que esta é uma excelente oportunidade para as instituições que trabalham no atendimento as  pessoas com autismo.
Paz e luz!
Judi Menezes
 
Links que podem ser utéis:

ABRA - Associação Brasileira de Autismo
http://www.autismo.org.br/

http://www.adefa.com.br/

AMA- AL - Associação de Amigos do Autista de Alagoas

http://www.autismoalagoas.org.br/

AMA - ES – Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santos

http://www.amaesvitoria.org.br/

AMA -PB - Associação dos Pais e Amigos do Autista da Paraíba

http://www.amapb.com.br/

AMA - Ribeirão Preto - Associação de Amigos do Autista de Ribeirão Preto

http://www.amaribeirao.org.br/

AMA- SC- Florianópolis - Associação de Amigos do Autista Florianópolis

http://www.amaflorianopolis.org.br/

AMA - SP- Associação de Amigos do Autista

http://www.ama.org.br/

http://www.amaesvitoria.org.br/

APAE- São Carlos

http://www.apaesc.org.br/

APAE - Três Pontas - MG - Associação de Pais e Amigos e Excepcionais

www.apaetp.org.br/index.htm

Associação Amigos dos Autista de Sorocaba

http://www.amas.com.br/

Associação de Pais de Autistas e Deficientes Mentais - APADEM

http://apadem.blogspot.com/



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Inscreva sua instituição, participe!!




6 de mar. de 2011

Autismo sob uma Pespectiva Gestáltica (PARTE II)



Considerando a definição e características do autismo dadas por muitos autores que trabalham sobre este assunto, autismo é conceituado como um déficit cognitivo social severo (Castanedo, 1997). Eu tentarei descreve-lo de uma perspectiva gestáltica, utilizando conceitos que eu tenho enfatizado através deste trabalho.
Autismo pode ser considerado um problema ao nível da fronteira das fronteiras de contato e o self. Eu acredito que possa ser afirmado que o autismo é um endurecimento das fronteiras de contato. Como Perls et al. (1951) disseram; “A experiência ocorre no limite entre o organismo e seu ambiente, primariamente na superfície da pele e outros órgãos motores e sensoriais” e eles continuam “O objetivo da psicologia é: 1. Experiência é o contato final, funcionar ao nível das fronteiras de contato e seu ambiente. 2. Toda função humana é uma interação no campo organismo/ambiente, social, cultural, animal e física”(p.3).
Isto envolve pensar mais em termos de um processo, não apenas do contato que acontece entre, mas também a forma como a experiência ocorre, que é dado em termos de um relacionamento chamado crescimento.
Baseado nesta perspectiva eu considero o autismo um “enrigecimento” dos limites das fronteiras de contato que bloqueia a comunicação do organismo com o seu ambiente, deixando a criança isolada, no sentido que sua capacidade para estabelecer relacionamentos é largamente diminuída. Como um resultado seu crescimento e desenvolvimento como ser humano é interrompido, e seu potencial se torna estagnado em uma variedade de formas.
Se a Gestalt Terapia considera interação como a função humana principal, então quando estas crianças param de interagir elas são também deixadas de fora do campo humanizante, que leva-as a se relacionar com pessoas como se fossem objetos que são para serem manipulados de acordo com suas necessidades. Se nós considerarmos o autismo nesta perspectiva, nos oferece a possibilidade para conceber uma forma de intervenção.
A teoria gestáltica nos compele a procurar por um meio para reestabelecer, ou mais precisamente estabelecer, contato com estas crianças. Concordando com Zinker (1977), Polster e Polster (1973) afirmam, “o terapeuta parte dos seus próprios sentimentos e usa o seu próprio estado de espírito como um instrumento terapêutico... Ele ou ela deve estar sintonizado coma pessoa com a que ele ou ela está em contato, se tornando, de certa forma, uma caixa de ressonância para o que quer que aconteça entre ele ou ela e o paciente” (p.34), eu poderia dizer que neste caso nós nos tornamos nossas próprias ferramentas. Isto envolve nos aproximarmos da criança com uma atitude aberta, receptiva e aceitadora. Também envolve uma vontade de nos engajarmos em um encontro em que nós desejamos abrir a nós mesmos para confrontação, em que nós oferecemos nossos próprios selves para o outro.
Quando nós nos aproximamos de uma criança cujas fronteiras de contato foram diminuídas, nossas palavras rebatem e voltam, como se de um espelho. Como um resultado, nós podemos nos descobrir inventando sintomas do nada, do silêncio, da frustração e da incerteza. Uma questão que se torna importante é como fazer estas barreiras flexíveis, como fazer aquele “enrijecido” projetivo começar a ceder terreno.
Para Polster e Polster (1973), “A fronteira do ser humano – a fronteira do Eu – é determinada por todo o espectro de suas experiências de vida e pelas habilidades que podem ter sido adquiridas para assimilar novas e intensas experiências” (p.34). Neste sentido é entendido que as fronteiras de contato são também moldadas pelas experiências da criança as vezes através de um processo de introjeção.
Introjeção é um modo genérico de interação entre o indivíduo e seu ambiente, e mais especificamente para a criança, Polster e Polster (1973) dizem:
Uma criança pequena aceita qualquer coisa que ele não experiência como imediatamente nocivo. Ele aceita comida de qualquer forma que lhe for oferecida ou ele a cospe... Quando ele começa a mastigar ele aprende a reestruturar o que ele ingere, mas antes disso ele apenas engole suas impressões sobre o que acontece no mundo.
Desta primeira necessidade de tomar as coisas como elas chegam ou se livrar delas sempre que for possível, é derivada sua notória necessidade para confiar em seu ambiente (pp. 80-81).
Para uma criança autista o ambiente exterior é experimentado como nocivo, então ele tem que se defender dele. Ele introjeta apenas umas poucas coisas a um passo muito lento. Assim seu desenvolvimento é mais lento que aquele de outras crianças. Ele não confia em seu ambiente, então muito pouco atravessa suas barreiras. Por que as coisas que ele introjeta como uma forma de aprendizado de experiências vividas são mínimas, o desenvolvimento da criança é empobrecido, e as experiências que são introjetadas não são facilmente assimiladas.
Para uma situação introjetada ser assimilada, precisa ser elaborada, mastigada, isto é, deve passar por um processo de integração interna. Entretanto, para isto acontecer deve existir uma certa distância entre o objeto e o sujeito, entre o que é introjetado e própria pessoa. Para uma criança autista não existe tal distância. Não existe uma clara diferenciação do Eu e do Tu; entre os objetos internos e externos.
Para pensar sobre o autismo desta maneira nós precisamos de um sistema de referência que nos oferecerá uma possibilidade de intervenção. Está claro que irá ser necessário ajudar a criança a se tornar separada, a diferenciar a si mesma do que é e o que não é ela mesma, onde ela começa onde ela termina; onde suas fronteiras de contato estão, e o que nós devemos fazer para ajuda-la a distanciar-se dos objetos para que ela possa ser apta a trabalhar com sua introjeções que se tornaram coaguladas, presa as paredes, como outras criaturas autistas tais como insetos.
Nós sabemos que a um nível linguístico uma criança autista fica confusa a respeito do uso de pronomes. Isso não é coincidência. É na verdade um reflexo de sua impossibilidade de diferenciar a si mesma como um “Eu”. Esta forma de trabalhar com uma criança autista é exemplificada pelo meu trabalho com Olmo.
A mãe de Olmo fez um grande trabalho neste sentido, porque antes de eu encontra-lo ela já tinha conseguido que sua criança fizesse clara diferenciação dos pronomes. Ele fazia poucos erros quando falando sobre si mesmo ou sobre os outros, quando usando “eu” ou “você”. Apenas ocasionalmente ele ainda fazia erros verbais. Por exemplo, quando nós nos encontramos pela primeira vez, ele disse: “You invites you home” [mantive a versão original devido as diferenças gramaticais entre o inglês e o português], quando ele queria me pedir para convida-lo para minha casa. Ele tinha problemas estruturando a sentença correta.
Durante nossas sessões eu as vezes insistia em perguntar o que ele queria. A separação começa quando o indivíduo se torna consciente [aware] de suas necessidades internas e se torna apto a expressa-las, separando a siexpressa-las, separando a si mesmo do desejo do outro, mesmo do que os outros querem dele.
Naturalmente, porque Olmo não era apto a atuar por si mesmo, ele sempre estava sob a vigilância de uma pessoa mais velha, então ele sempre esteve próximo de sua mãe ou para a América, seu cuidador, que fez um grande trabalho com ele. Ela sempre o manteve à vista e sempre segurou sua mão na rua.
Deixando o consultório, eu levei ele na rua e perguntei a ele onde ele queria ir. A escolha não foi difícil para ele. Ele imediatamente disse que queria ir ao parque coletar insetos. No inicio eu obedeci ao seu desejo. Como o tratamento progrediu eu disse a ele que nós estávamos indo a uma loja para que ele pudesse comprar alguma coisa. Primeiro, ele tinha que decidir o que ele queria comprar. Na rua eu perguntei a ele onde a loja era, para que ele pudesse encontrá-la sozinho. Quando nós chegamos lá, eu permaneci do lado de fora, assim ele teve que ir sozinho e pedir o que ele queria. No inicio foi difícil e eu tive que entrar e ajuda-lo. Então eu perguntava a ele para liderar o caminho de volta ao consultório. Ele certamente sabia o caminho.
Em outra ocasião ele foi passar um final de semana na minha casa. Eu tenho feito isso diversas vezes porque eu acredito que com crianças como Olmo não é suficiente limitar o trabalho ao consultório. É necessário ter diferentes ambientes e dimensões que ofereçam a elas novos desafios e experiências, e para ajudar a assimilá-las.
Em frente da casa existe um parque que é uma grande atração para Olmo. Os primeiras poucas vezes que ele foi a minha casa eu fui com ele para o parque e ele caçava insetos. Ele o batizou “o parque do grilo”. Eu certifiquei-me que ele sabia o caminho de volta para a casa bem e mesmo deixo ir sozinho em uma ocasião. Entretanto, ele tinha que me deixar saber que ele queria ir, para ter permissão. Com este experimento nós alcançamos uma separação de desejos, e ao mesmo tempo criamos regras e limites.
Eu também disse a ele quanto tempo ele poderia ficar no parque, apesar que eu sabia que ele não tinha um relógio para manter controle do tempo e provavelmente não entendia o conceito de tempo. Todavia, foi uma forma para começar a introduzi-lo ao mesmo. Eu disse a ele que ele tinha que estar de volta em meia hora, quando seria hora de comer. Ele foi e voltou sozinho.
Vale a pena mencionar que mesmo confiando nele, eu também estava preocupada com a sua reação. Quando ele retornava existia uma espetacular expressão em sua face. Ele estava inaugurando a sua liberdade, a possibilidade de se tornar separado.
Na manhã seguinte ele acordou cedo, e quando eu não ouvi nenhum som, eu fui ver onde ele estava. Eu fui surpreendida em descobrir que ele não estava na casa, mesmo estando a porta e portão da frente fechados. Ele tinha saído através da janela e então tinha conseguido se esgueirar pelas barras do portão para ir ao parque. Quando eu o vi ele estava em seu caminho de volta, usando a mesma rota para voltar para dentro da casa. Eu estava surpresa por sua inteligência e habilidade para conseguir o que queria. Tudo isto foi necessário para ensina-lo a perceber quando ele queria sair. Agora a mãe de Olmo o manda para pegar coisas no armazém, e ele vai facilmente.
No autismo, atenção ou é difusa ou excessivamente focada, como quando a criança concentra toda a sua atenção em um simples estímulo. Pode ser auto-gerado como balançar o seu corpo para trás e para frente, ou um objeto que parece como um prolongamento dela mesmo. Este estímulo captura toda a sua atenção de tal forma que a criança é vazia sem ele. Ela faz isso porque significa tudo para ele; é sua proteção, sua segurança.
Pode ser dito que sua awareness é centrada precisamente no limite de suas fronteiras de contato. Nós não podemos dizer que existe uma relação interna ou awareness, porque não existe introspecção ou processo imaginativo. O mesmo é verdade externamente. Novamente, a ideia é, estimular awareness através do processo terapêutico, fazê-lo circular, recuperando a capacidade para ir de um objeto para o outro, do interior para o exterior.
Outra característica de awareness é seu relacionamento com a linguagem, isto é, a capacidade para expressar simbolicamente o que é percebido. Uma criança autista é também debilitada neste sentido, porque ela não pode falar sobre coisa, particularmente quando isto requer uma certa distância, implicando uma dimensão de espaço-tempo.
Quando eu perguntei a Olmo sobre seus insetos, sobre pega-los ou qualquer coisa relacionada a eles, ele não respondia, e eu percebi que ele podia ou ele não podia. Eu também percebi que sua captura de insetos é uma atividade que ele engajar completamente sozinho. Ele não permitia mais ninguém participar. Quando eu tentei intervir, pegando borboletas e colocando-as em jarros, ele me impediu de fazê-lo.
Uma vez eu fui com ele em uma piscina, para trabalhar em aprender um jogo de bola. Repentinamente, ele saiu da piscina, atraído por algumas lindas borboletas que estavam voando em volta em um campo. Ele achou uma jarra e concentrou toda a sua atenção em pega-las. Ele se aproximava delas lentamente, quase sem se mover, completamente absorto; ele lentamente esticava sua mão e, se ele não tinha sucesso, começava tudo de novo. Uma criança pequena se aproximou dele, atraída pelas ações de Olmo. Olmo ficou furioso e pediu para criança ir embora, empurrando-a, até. A criança insistiu em olhar as borboletas e Olmo teve um grande acesso de raiva; ele se atirou no chão gritando até que a criança foi embora. Então ele ficou absorto em sua ocupação prévia, como se nada tivesse acontecido.
Agora Olmo concentra sua atenção em outros estímulos também. Embora ele ainda seja obsessivo sobre eles, é um passo importante, porque as opções de sua awareness estão se movendo e se ampliando.
Ele também começou a ser capaz de introspecção. Em certos momentos ele pode falar sobre si mesmo, sobre o que ele tem feito, sobre as coisas que ele gosta, e mesmo sobre seu passado, se perguntado.

Nada
Como eu previamente escrevi, o problema com crianças autistas é precisamente o sentimento de não existência (Tustin, 1992). Isto é por que eles agarram esses objetos que são um prolongamento de seus próprios corpos, que os representam e lhes permitem uma ilusão de existir com o exterior.
Em O Ser e o Nada Jean Paul Sartre reflete sobre a não-existência e, ao mesmo tempo, sobre aquilo que, através do ser, faz a existência possível. Ele diz: “Nada pode ser concebido fora do ser ou como originando no Ser... apenas aquilo que é pode ser aniquilado, mas primeiro tem que ser” (p.58). Então, podemos dizer que uma criança autista não existe? Ou melhor, que existe alguma coisa que não permite que elas se reconheçam como serem, como humanos?
É importante chamar a criança autista para dentro do ser a partir do nosso próprio ser. Para fazer isso nós devemos criar um lugar para ela, um lugar de confiança onde ela pode começar a dar seus primeiros passos dentro do ser, em se tornar totalmente humana. Ele terá que viajar pela estrada de construir um corpo e distinguindo uma coisa da outra. Neste sentido, o terapeuta cria as condições necessárias, metaforicamente falando:
O psicoterapeuta assopra a pequena chama da psique até que esta se inflame, e aquele constante assoprar significa compreender a fonte da insegurança destas crianças e prover a elas uma situação dentro da qual elas podem começar a estabelecer ligações mentais com um terapeuta como se fosse uma ama de leite. Nós chamamos isto de transferência infantil. Para que isto se estabeleça deve existir um moderado uso de objetos autísticos e figuras predominantemente sensoriais (Tustin, 1992, p. 131).

Não e Por que

No início Olmo não se opunha a ninguém, ao menos não diretamente. Na verdade a forma que a criança autista tem para expressar sua afirmação é sua aderência ao objeto autístico, porque é o que lhe permite continuar existindo. Todavia, não é uma afirmação completa, porque não existe uma diferenciação clara entre ser e não-ser. Para cita Sartre novamente, ele diz que “isto é suficiente para demonstrar que o não-ser não vem as coisas através da negação: ao contrário, a negação é condicionada e sustentada pelo não-ser” (Sartre, 1945, p.47). A criança autista não intervém subjetivamente; ela se apaga, ela espera nada dos outros e, dessa forma, ela não pratica a função de negação. Ela não brinca, também.
Neste processo de individuação existe um precipício que se abre entre a mãe e a criança, marcado pela ausência. Esta falta da nascimento as necessidades, desejos e expectativas. Uma criança autista não sente esta separação. Sua privação tem sido tão devastadora que a criança não se permite experimentar por completo a ausência, que, para ela, é como um “buraco negro” de “não-existência” (Tustin, 1992). Ele cobre esta falta da melhor forma que ela pode construindo para si mesma uma armadura, uma carapaça e se tornando obsessivamente ligada a objetos.
Olmo não dizia não. A primeira vez que eu o vi ele estava calmamente sentado na sala de espera. Mesmo quando peguei sua mão ele ainda não tinha tomado conhecimento de mim. Como uma regra geral ele não fazia nenhuma das coisas que eu pedia a ele para fazer, não para se opor a mim, mas simplesmente porque ele estava operando em outra freqüência, imerso em seu próprio mundo.
Como ele começou a emergir daquela carapaça, ele começou a desenvolver a capacidade para negar. No início de cada sessão eu perguntava a ele o que ele queria fazer. Eu abri um espaço para o seu desejo. Ele foi para a gaiola do tucano e tentou abrir a porta. Eu dei voz ao seu desejo. “Você quer abrir a porta do tucano. Você quer que o tucano saia.” Ele foi até a água e pegou um copo. “Você quer água. Você está com sede e então você quer água.”
Agora, após um ano, Olmo abertamente expressa o que ele não quer. Ele grita com toda a sua força. “Deixe-me sozinho! Eu não quero!” Ele expressa seus desejos da mesma maneira: “Eu quero levar esta tartaruga pra casa. Você vai me dar esta tartaruga. Eu quero leva-la para casa.” Ajudando-o a expressar seus desejos, a dizer não, a se afirmar através da negação; e a sempre dar a ele uma escolha, tem sido um importante processo na terapia.
No processo de desenvolvimento, uma criança que incorporou uma capacidade para a negação entra no estágio do “por que”. Interrogar os outros significa estar presente e perguntando sobre seu ser. Acima de tudo, significa a possibilidade de estabelecer ligações significantes e relacionamentos, ir além das barreiras do ego. Perguntar é mostrar interesse, fazer contato.
A criança autista não pergunta ou responde questões. Não existe interesse. Sua linguagem ecolalica não espera nada do outro, ou ao menos assim parece. Mas esta é a barreira que nós devemos atravessar, tentando não ser pegos na repetição. Nós devemos agarrar a importância destas repetições: Repetir, perguntar de novo. Se nós pensarmos nas barreiras de contato como um círculo engolfando a criança, a repetição será como ir girando e girando ao redor do perímetro do círculo, mas sem nada indo ou vindo através dele.
Olmo repete coisas. Uma vez, quando eu estava prestando atenção concentrada a sua linguagem e ao que eu estava fazendo com ela, eu percebi como eu estava me tornando enredada, precisamente girando e girando ao redor do perímetro, e, obviamente, eliminando a possibilidade de ir com ele, de estabelecer algum tipo de contato. Isto me fez parar para pensar e achar um caminho para fazer nossos diálogos circularem. Originalmente, quando Olmo repetia alguma coisa eu repetia também, tentando afirmar o que ele havia dito, mas ele apenas continuava repetindo de novo e de novo. “Eu não devo pegar insetos, não é? Eu não devo pegar insetos, insetos não devem ser pegos, sim, deixe-os em paz, eu não devo pegar insetos.” E repetia uma dessas frases, mas nós podíamos continuar com isso indefinidamente. Quando eu percebi o meu eu erro eu comecei a introduzir questões, pensando exatamente sobre a forma que as crianças fazem, e sobre como as ajuda a estabelecer um relacionamento e uma busca por significado.
Posteriormente, quando ele começava a repetir, eu introduzia uma questão: “Porque eu não devo pegar insetos?” eu certamente não estava esperando uma resposta; ele continuaria com a sua repetição, mas, da mesma forma, eu continuaria com as perguntas e respostas. “Você não deve pegar insetos porque seus olhos vão ser infectados. Porque mais você acha que não deve pega-los?”. Ele continuava a repetindo e eu continuava explicando. “Outra razão para não pegar insetos é porque eles irão morrer. Eles precisam estar na grama para comer.”
Gradualmente Olmo desenvolveu uma capacidade para perguntar ou responder questões. Isso também o ajudou a falar de uma forma mais espontânea sobre si mesmo. É curioso que tem vezes quando assim que ele me vê ou alguma outra pessoa a primeira coisa que ele irá fazer é perguntar: “Como você está? Como você se sente?” Eu estou ciente que em um certo grau suas perguntas são ainda puramente automáticas, mas existe também alguma coisa se movendo dentro dele, porque quando ele faz estas perguntas ele ri.
Para uma criança uma questão é alguma coisa mais profunda do que nós percebemos. As vezes a insistência é tediante; ou podemos achar as questões constantes da criança fascinante. Todavia, essa é outra maneira pela qual a criança se constrói. Sartre (1945) diz:
Em cada interpretação nós nos colocamos diante de alguém que nos interroga. Toda interrogação pressupõe um ser que pergunta um ser que é perguntado. Não é o relacionamento primitivo do homem com o ser em si mesmo; ao contrário, permanece dentro dos limites deste relacionamento e o supõe. Por outro lado, nós interrogamos o ser interrogado sobre alguma coisa. Este sobre alguma coisa que eu interrogo o ser, participa da transcendência daquele ser: Eu interrogo o ser sobre a forma que ele é ou sobre seu ser... Isto é, sobre um antecedente de pré-interrogatória familiaridade com o ser eu espero deste ser uma revelação sobre seu ser ou sua forma de ser. (pp. 40-41).


Capacidade para Brincar

Winnicott já tinha nos alertado que a ausência do brincar em uma criança é uma indicação de conflito. Em crianças autistas existe uma completa ausência da capacidade de brincar, assim como da capacidade de imaginar.
Para uma criança, brincar é uma atividade através da qual ela cria a imagem de seu corpo e um relacionamento com os outros. Também, brincar é uma forma de criar situações que a criança atravessa na vida que podem implicar algum conflito para ela. Isto implica o desenvolvimento da fantasia e, acima de tudo, o estabelecimento de uma ordem simbólica.
Brincar também acontece na interseção das dimensões do espaço e tempo. “Um espaço potencial entre o infante e a mãe... assimilando experiências que o confrontam a) ao mundo interior (relacionado com associações psicossomáticas) e b) à realidade exterior.” (Winnicott, 1969, pp. 64-65)
Como um princípio, quando uma criança não brinca isso parece ser uma evidência de um sério conflito interior. A ausência do brincar pode ser vista de diferentes níveis. Por exemplo, crianças com déficit de atenção, com ou sem hiperatividade, estabelecem jogos, mas eles são muito superficiais e/ou breves. No consultório elas irão pegar uma coisa e larga-la, e então uma após a outra. Não existe permanência.
Oaklander (1969) considera que crianças com déficit de atenção têm um problema ao nível das fronteiras de contato. Elas não prestam atenção, porque elas não podem fazer contato com a realidade. Em outros casos as crianças brincam automaticamente sem um grande conteúdo imaginativo ou fantasioso ou consciência do terapeuta.
Olmo não brincava. Algumas vezes ele arrumava pequenos animais de fazenda ao redor de todo o perímetro da sala, ou ele arrumava-os em ordem impecável na caixa de areia, mas se eu pegasse um e tentasse brincar, ele protestava energicamente e o colocava de volta no seu lugar.
No inicio ele era incapaz de brincar com uma bola e eu tinha que encorajar e ensinar. Nesta ocasião, ele não apenas aprendeu a jogar bola, mas no nosso caminho de volta para casa, ele iniciou um jogo de palavras no qual eu devia advinhar o seu nome, então ele dava um diferente e gargalhava.
A mulher que atualmente trabalha na casa de Olmo e cuida dele tem uma criança 2 anos mais nova. Ela brinca com ele, e algumas vezes participa na caça aos insetos. Eu acredito que isto será de grande ajuda para Olmo.
A iniciação do brincar é um dos principais desafios terapêuticos; não é uma tarefa fácil. Winnicott acreditava que terapia é a superposição de duas zonas de brincadeira: a da criança e a do terapeuta. Neste caso, é essencial que o terapeuta saiba como brincar e se envolva nos jogos.
Com Olmo nós temos realizado jogos que lidam com a delimitação de superfícies, um jogo que tem como objetivo não apenas construir um corpo, mas também delimitar suas fronteiras de contato, diferenciar a si mesmo de mim, distinguir o Eu do Tu. Este jogo tem evoluído; Olmo está gradualmente se tornando mais consciente de seu próprio corpo e do encontro de corpos. Ele pede para receber cócegas, expressando suas necessidades, seus desejos e sua vontade, e ao mesmo tempo, ele também quer fazer cócegas.
O que ainda permanece para ser feito é alcançar um jogo onde ele possa engajar a sua imaginação, a capacidade para gerar idéias e a expressão de emoções. O mais próximo que nós algum dia estivemos da expressão de emoções aconteceu uma vez quando ele estava desenhando e pediu que nós desenhássemos sóis: um sol feliz, um sol triste, um sol zangado. Mas ele ainda não podia se identificar projetivamente no desenho.

Conclusão

Como a Gestalt Terapia é uma abordagem jovem, existe muito a ser feito no campo da psicopatologia e também para desenvolver uma teoria da personalidade. Muitas vezes o ponto inicial é o comportamento anormal tal como o autismo. Trabalhando com Olmo me ensinou muitas coisas sobre o desenvolvimento infantil.
Olmo agora tem 12 anos de idade. Após três anos de tratamento ele é uma criança que não mais condiz com a diagnose de autismo. Ele brinca com outras crianças e tem fantasias, ele participa de conversações com outras pessoas e dá a sua opinião, ele reconhece e expressa seus sentimentos, ele vai a escola e mesmo diz que tem uma namorada, ele entende conceitos abstratos, futuro e passado. Ainda existe trabalho a ser feito com ele, mas ele trilhou um longo caminho. Ele me ensinou muito.


Referências
Amescua, G. (1995), La magia de los Niños, México, CEIG.Buber, M (1979), You and I, Argentina, Nueva Visión.Canstanedo, C. (1997), Psychological Basis of Special Education, España, CCS.Mahler, M. (1959), Human Symbiosis and the Vicissitudes of Individuation. Mexico, J.Mortiz (1987).Oaklander, V. (1969), Windows to our Children. Chile, Cuantro Vientos (1982).Perls, Hefferline, Goodman (1951), GEstatl, Therapy, Excitement and Growth in the Humam Personality. New York, The Gestalt Journal (1994).Polster & Polster (1973), Gestalt Therapy. Argentina, Amorrortu. (1991).Sartre, J. P. (1945), El ser y la Nada. España, Losada. (1989).Tustin, F. (1992), The Protector Shield in Children and Adults. Argentina, Amorrortu.Winnicott, D. (1969), Playing and Reality. Buenos Aires, Argentina.Zinker, J. (1977), Creative Process in Gestalt Therapy. Argentina, Paidos (1979);










5 de mar. de 2011

AUTISMO E GESTALT


Fechado com a porta entreaberta
FECHADO COM A PORTA ENTRE ABERTA
                                                            
Trabalhei numa sala "especial" com  crianças com Autismo , na realidade foi um desejo, uma escolha!  Acredito que o principal desafio de um professor ao se deparar com uma criança autista seja a falta de resposta para tantas indagações; a falta de informação; a falta de um espaço para troca de experiências e a insegurança gerada pelo  “diferente”, a frustração diante de um trabalho que aparentemente não progride, a ansiedade gerada por transitar num tempo diferenciado onde o retorno, as vezes, se faz de forma bem sutil quase imperceptível. Ou seja, o olhar e todos os sentidos e percepcoes devem estar bem aflorados e atentos a um universo bem particular de um autista. Acredito que enxergar uma criança autista não é o mesmo que interagir com ela no mundo social. Não importa o que os especialistas mundialmente reconhecidos digam, é necessário que a criança autista tenha visibilidade. Visibilidade, não apenas garantias constitucionais que assegurem os direitos da criança a educação. O Sistema Escolar não enxerga essa criança, pois não adianta garantir uma vaga numa sala e continuar tratando a criança como objeto e fonte de repulsa, não lhe permitindo ser nem enxergada e nem compreendida. E ainda dizem que os autistas têm cegueira mental! Sempre questionei quem realmente tem essa cegueira. Muitas vezes desconfio, humildemente, que esta cegueira é inerente às autoridades no assunto, aos especialistas de gabinete, aos políticos de plantão.
Aprendi  que é muito complicado, para quem convive com uma criança autista, descrevê-la para pessoas que se encontram em posições de autoridade no assunto, pois as mesmas geralmente tentam fazer um enquadramento teórico e técnico, muitas vezes frio, distante e calculista daquela criança em questão.
Conversei com alguns especialistas, estudiosos dedicados ao estudo do autismo e percebi que a grande preocupação era reduzir todo o processo educativo a uma mera escolha teórica e metodológica. Apesar disso percebi que na comunidade escolar em geral e, principalmente para os estudantes “normais”, estes mostram-se mais compreensivos e solidários com crianças autistas quando têm o conhecimento necessário sobre o que vem a ser o autismo.
O que ficou muito claro e visível é que, com um programa escolar e um ambiente educacional adequados, essa criança autista seria academicamente mais capaz do que os especialistas acham. E que muitas técnicas são perfeitamente aplicáveis e apresentam ótimos resultados. Sinceramente, fiz muitas adequações das mesmas, até porque o sistema de ensino e a escola, não estavam nem um pouco preparados, preocupados ou interessados naquelas crianças. Estavam apenas cumprindo seu papel social e uma exigência Governamental, além do que, recebendo uma verba que nunca foi aplicada em favor daquelas crianças para quem as verbas deveriam ter sido destinadas. É claro, para justificar a aplicação das verbas, no final do ano contrataram os especialistas, para me dizer o que fazer com aquelas crianças.Já era tarde! Havia percebido que existia entre esses teóricos e especialistas uma preocupação com a confirmação dos seus pressupostos teóricos. Não estou defendendo nenhuma teoria em especial ate porque, através da minha necessidade de saber, de conhecer o Autismo lia quase tudo . Deparei-me com esse texto e fiquei encantada, com a forma como a questão do contato foi abordada, pois ate então o maior esforço dos especialistas era me convencer de que isso tudo era uma grande perda de tempo. Não sou psicóloga, não entendo muito sobre gestalt, ate porque a psicanálise sempre foi o meu objeto de curiosidade! Mas, sem perceber estava acreditando e  praticando algumas coisas ( como professora, toda a leitura era voltada para a melhoria da pratica pedagógica) que a teoria gestaltica  aponta :   “o terapeuta parte dos seus próprios sentimentos e usa o seu próprio estado de espírito como um instrumento terapêutico... Ele ou ela deve estar sintonizado coma pessoa com a que ele ou ela está em contato, se tornando, de certa forma, uma caixa de ressonância para o que quer que aconteça entre ele ou ela e o paciente” , eu poderia dizer que neste caso nós nos tornamos nossas próprias ferramentas. Isto envolve nos aproximarmos da criança com uma atitude aberta, receptiva e aceitadora (sentia a critica velada quando assumia determinada postura com meus alunos autistas). Também envolve uma vontade de nos engajarmos em um encontro em que nós desejamos abrir a nós mesmos para confrontação, em que nós oferecemos nossos próprios selfs para o outro. Por isso eu sempre tenha desejado trabalhar com essas crianças!!!
Para quem trabalha com crianças e adolescentes, é muito importante conhecer as teorias da personalidade. Penso que o texto abaixo pode ser muito útil e esclarecedor porque baseada na teoria do contato e do self, a autora considera o autismo como um problema de contato e fronteira no qual a criança está aprisionada na fronteira. Assim sendo, podemos pensar sobre uma abordagem gestáltica do autismo. Como um resultado de sua experiência com crianças autistas, foi  apresentada  uma explanação do desenvolvimento da criança utilizando uma perspectiva gestáltica.
O artigo 'e extenso , por isso vou dividi-lo em duas partes.
Vale a pena!!! Boa leitura.
Paz e Luz!!
Judi Menezes


Autismo na Teoria Gestalt Em direção a uma Teoria Gestalt da Personalidade   (PARTE I)


Introdução


Eu sempre fui fascinada por teorias da personalidade, as diferentes formas em que nós podemos explicar como o desenvolvimento de uma criança se desdobra, como ele se torna estruturado como um sujeito, e como ele se torna uma pessoa. Aparte das próprias teorias, eu me maravilhei com os gênios destes que as desenvolveram: Freud, Klein, Lacan, Dolto, Wallon, Piaget, Mahler, Spitz.
Como eles conseguiram criar estas maravilhosas teorias é verdadeiramente um mistério intransponível. Sim, é claro, eles o fizeram através da observação, mas eu me pergunto o que guiou as suas observações e, além disso, como eles conseguiram transformar os dados em ricas especulações.
Em última análise, a resposta não é tão complicada assim. Eles criaram categorias básicas que funcionaram como um eixo, como um baú do qual os conceitos secundários brotaram, e de onde eles deram forma para suas observações sobre o desenvolvimento infantil. Mas sempre, todas as vezes, eles foram guiados por estas categorias básicas.
Por outro lado, por um longo tempo eu fiquei encantada em ver que a Gestalt Terapia tinha desenvolvido uma série de técnicas para trabalhar com crianças e que particularmente Violet Oaklander (1969) tem feito uma contribuição sem paralelos para a terapia infantil. Entretanto, ninguém desenvolveu uma base teórica para explicar o desenvolvimento infantil, e assim foi necessário nos voltarmos para outros pontos de vista.
Neste artigo, eu tentarei explicar o desenvolvimento infantil do ponto de vista da psicoterapia gestáltica. Para fazer isto eu deverei usar alguns dos conceitos básicos da Gestalt, tais como fronteiras de contato, teoria do self, awareness, e o ciclo de experiência.
Também, eu irei ilustrar estes conceitos através de uma descrição de meu relacionamento com, e observação de, uma criança autista.
As Fronteiras de Contato Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 481) em um capítulo apropriadamente chamado “The Structure of Growth” [A Estrutura do Crescimento] desenvolveram o conceito gestáltico fundamental de fronteiras de contato. Por fronteiras de contato nós queremos dizer o que separa e conecta duas pessoas. Um começa onde o outro termina. Fronteiras de contato nos separam e nos protegem. Existem tanto fronteiras físicas quanto psicológicas. Nossa fronteira física é nossa pele, mas nossas fronteiras psicológicas são mais complexas; elas são estruturadas e modificadas ao longo das nossas vidas.
De acordo com Perls et al., nossa vida é moldada pelas experiências. A primeira é nascer. Daquele momento em diante, nós integramos as experiências e a forma como nós reagimos a elas. Cada uma destas experiências, tais como existir, emergir de nós mesmos, estabelecer contato, permanecer; constrói e desconstrói formas, é importante no nosso desenvolvimento do self.
Este processo de criação e destruição dos relacionamentos pode ser fluído ou infectado por obstáculos que irão moldar a experiência da criança diante de dadas situações, assim como as formas com as quais ela irá eventualmente confronta-las. Experiências ocorrem no limite entre o organismo e seu ambiente, e o contato é a awareness sensorial, assim como os comportamentos motores e as emoções.
Em acordância com os existencialistas, eu proponho que ao invés de “organismo” nós usemos o conceito de “pessoa”. O termo organismo refere-se a uma origem biológica e mesmo sendo o homem, efetivamente, um organismo, ele é muito mais do que isso. Particularmente considerando a Gestalt-Terapia como uma teoria humanista, a palavra pessoa será muito mais apropriada.
Quando a criança nasce, ela é capaz de percepção sensorial, assim como respostas motoras e emocionais, como ele começa a reagir ao seu ambiente. Esta responsitividade sensorial é alguma coisa que ela divide com outros animais. O que, então, a distingue e a torna um ser humano?
Como postulado por Hegel (1947) e Buber (1979), um homem se torna tal no momento em que ele:


- reconhece a si mesmo, como uma imagem e através da linguagem,


- alcança consciência de sua própria existência,


- é reconhecido por alguém mais,


- e, então, estabeleceu um relacionamento com outro ser além de si próprio
Todas as colocações acima são o que em Gestalt Terapia nós chamamos de contato.


Em Direção a uma Teoria do Desenvolvimento


No processo de desenvolvimento da criança nós podemos distinguir dois momentos: (1) primeiro momento que nós podemos chamar de pré-pessoa, isto é, a criança como um ser biológico, mas não tendo ainda todas as características que são necessárias para considerá-la uma pessoa no sentido mais amplo do termo, e (2) o momento quando ela pode ser chamada uma pessoa.
Durante a fase pré-pessoa, a criança é consciente do seu ambiente, de algumas de suas necessidades básicas, e ela pode comunica-las, mas ainda lhe falta a capacidade de ser consciente de si mesma como uma entidade separada e, assim sendo, também lhe falta uma clara consciência do outro. Para usar um termo de Buber, ele é incapaz de diferenciar o Eu do Tu.
Para finalmente alcançar isto a criança atravessa um processo em sua awareness que pode ser explicado usando as categorias das fronteiras do contato, awareness, funções do self, ciclo de experiência e mecanismos de defesa.
Fronteiras de contato estão presentes a partir do momento do nascimento. Todavia, elas ainda são lábeis e frágeis; a criança pode começar a se tornar consciente dos seus arredores mas não pode diferenciar-se completamente deles. De acordo com Mahler (1959; todos os números de página se referem a edição mexicana de 1987), a mãe é o primeiro “Eu” auxiliar da criança.
A criança nasce com uma consciência, e assim sendo ela pode começar a reconhecer seu mundo, tanto internamente quanto externamente. Através da função id do self, a criança reconhece as suas necessidades, apetites e impulsos, e através de uma função motor insipiente ela busca a satisfação para recuperar equilíbrio e prazer. Contato é a awareness do campo e a resposta motora dada. Em suma, contato é um ajustamento criativo do organismo ao ambiente. A função da fronteira de contato é crescer através do ajustamento criativo.

Ph. D.Guadalupe Amescua, Ph. D., o Centro de Estúdios e Inestigacion Guestalticos, Xalapa, México e autora do livro “The Magic of Children: Gestalt Therapy with Children, Mexico, 1995, Cuba, 1997.









3 de fev. de 2011

Workshop- Mediação para alunos Autistas, TDAH e outros transtornos correlatos


                                                                                                              Autor: Fidalgo Pedrosa


16 horas-aula teórica e prática
Dias: 12 e 19 de fevereiro (aos sábados)
Horário: 09:00 às 18:00 h
Local: Auditório da Universidade
Estácio de Sá – Nova América

Inscrições:

http://www.infinitysolucoes.com/
http://www.infinitysolucoes.com/curso-workshop1.html
Tel: (21) 3287-1387/8540-5662

Público-alvo: Mediadores, facilitadores, professores, estudantes (pedagogia, fonoaudiologia, Psicologia, Psicopedagogia, Ensino médio), coordenadores pedagógicos...

Objetivo do Curso:
Fornecer suporte e técnicas para trabalhar com alunos portadores de necessidades especiais.
Existe ainda, a possibilidade de encaminhamento para estágios para quem participar do curso.
Maiores informações sobre estágio e curso, entrar em contato:
Tel: (21) 3287-1387/2564-1969/8540-5662

Conteúdo:
Dia 12/02/11
09:00 à 12:00h – “Transtorno do Espectro Autístico: Compreendendo para Melhor Incluir”
Palestrante: Drª Carla Gikovate

Conceito sobre autismo e asperger
Como integrar autistas com não autistas
Programas de inclusão social através de colegas não autistas
Orientação para crianças não autistas que convivem com autistas
Atividades para autistas de alto funcionamento

12:00 à 14:00h – Intervalo para o almoço

14:00 às 18:00h – “Abordagens legais sobre o processo de Inclusão Educacional”

Palestrante: Izabel Moura

Objetivo:

Fornecer informações dos aspectos legais sobre o processo de inclusão educacional à partir da constituição de 1998/lei, diretrizes e bases da educação nacional.
Política de educação especial na perspectiva da educação inclusiva.
Discutir a atual legislação brasileira sobre inclusão
Caracterizar, avaliar e atender os alunos pedagogicamente dentro dos TGDs.
Adequação curricular, orientação e efetivação da adequação
Avaliação das necessidades educacionais específicas.
Planejamento de respostas educativas

Dia: 19/02/11

09:00 às 10:40 – “TDAH na escola: Estratégias de Ação Pedagógica”

Palestrante: Maria José

Hiperatividade na escola: Algumas orientações de como trabalhar em sala de aula.
Como Identificar e trabalhar com TDAH na Escola
Dicas para o professor lidar com Hiperativos
Estratégias de Ação pedagógica

Bullying

11:00 às 12:00 – “Estratégias para Estimular a Comunicação do Alunado Autista Verbal e Não Verbal:

Palestrante: Adriana Fernandes
Dicas para facilitar o compartilhar da atenção
Como Estimular a Comunicação
Recursos Gestuais e Visuais para melhorar a comunica

12:00 às 14:00H – Intervalo para o Almoço

14:00 às 18:00H – Avaliação e Terapia Comportamental (ABA/PECS)

Palestrante: Mariana Garcia

Objetivo:

Breve Introdução aos princípios da análise Comportamental aplicada e suas contribuições para a Intervenção no espectro do autismo. Apresentação de aplicações dos princípios do comportamento na avaliação de repertório comportamental e programação de condições de ensino que visam minimizar os déficits comportamentais decorrentes do autismo e promover o repertório de habilidades comunicativas, sociais e redução de comportamentos inadequados.
Análise do comportamento
Introdução aos princípios básicos do comportamento
Contingências de três termos
Reforçamento positivo e negativo
Extinção
Avaliação comportamental
Avaliação das condições ambientais
Avaliação dos reforçadores
Currículo de ensino
Programação de condições de ensino
Tentativas discretas
Ensino incidental
Modelagem: reforçamento por aproximações sucessivas
Cadeia de trás-para-frente
Técnicas de esvanecimento
Generalização
Avaliação da intervenção
PECS – Sistema de comunicação por troca de figuras.

PALESTRANTES

Drª Carla Gikovate - Neuropediatra, Mestre em Psicologia clínica pelo programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica/PUC-Rio, Especialista em Educação Especial Inclusiva

Mariana Garcia – Psicóloga, Doutorada do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica/PUC-RIO

Isabel Moura – Mestre em Psicologia Social pela UGM, especialista em Psicologia Educacional pela UFRJ, integrante da Equipe Técnica do Instituto Municipal Helena Antipof/SME/IHA-RJ, coordenadora do curso de Pós-graduação em Educação Inclusiva da Universidade Barra Mansa

Adriana Fernandes – Graduada em Fonoaudiologia pela UERJ, Pós-Graduada em Educação Inclusiva pela PUC-Rio, Certificada em Linguagem pelo IFF/Fiocruz, Certificada em Transtorno do Espectro do Autismo pela PUC-RIO.

Maria José – Graduada em Pedagogia pela UFRJ, Pós-Graduada em Psicopedagogia pela PUC/RIO, Curso de Didática de Nível Superior – PUC/RIO. Especialista em TDAH.





14 de nov. de 2010

Autismo - Estudo demonstra base biológica de doença altamente estigmatizada.

Do G1, em São Paulo
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1374229-7823-ESTUDOANALISA+O+COMPORTAMENTO+CEREBRAL+DO+AUTISMO,00.html

O biólogo molecular e colunista do G1 Alysson Muotri e cientistas brasileiros conseguiram transformar neurônios de portadores de um tipo de autismo conhecido como Síndrome de Rett em células saudáveis. Trabalhando nos Estados Unidos, os pesquisadores mostraram, pela primeira vez, que é possível reverter os efeitos da doença no nível neuronal, porém os remédios testados no experimento, realizado em laborátorio, ainda não podem ser usados em pessoas com segurança.
Muotri, pós-doutor em neurociência e células-tronco no Instituto Salk de Pesquisas Biológicas (EUA) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, trabalhou com os também brasileiros Cassiano Carromeu e Carol Marchetto. O estudo sai na edição de sexta-feira (12) da revista científica internacional “Cell”.
Para analisar diferenças entre os neurônios, a equipe fez uma biópsia de pele de pacientes autistas e de pessoas sem a condição. Depois, reprogramou as células da pele em células de pluripotência induzida (iPS) – idênticas às células-tronco embrionárias, mas não extraídas de embriões. “Pluripotência” é a capacidade de toda célula-tronco de se especializar, ou diferenciar, em qualquer célula do corpo.
A reprogramação genética de células adultas é feita por meio da introdução de genes. Eles funcionam como um software que reformata as células, deixando-as como se fossem de um embrião. Assim, as iPS também podem dar origem a células de todos os tipos, o que inclui neurônios.

Como os genomas dessas iPS vieram tanto de portadores de autismo como de não portadores, no final o trio de cientistas obteve neurônios autistas e neurônios saudáveis.

Comparação, conserto e limitações
Comparando os dois tipos, o grupo verificou que o núcleo dos neurônios autistas e o número de “espinhas”, as ramificações que atuam nas sinapses – contato entre neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra – é menor.
Identificados os defeitos, o trio experimentou duas drogas para “consertar” os neurônios autistas: fator de crescimento insulínico tipo 1 (IGF-1, na sigla em inglês) e gentamicina. Tanto com uma substância quanto com a outra, os neurônios autistas passaram a se comportar como se fossem normais.

“É possível reverter neurônios autistas para um estado normal, ou seja, o estado autista não é permanente”, diz Muotri, que escreve no blog Espiral. “Isso é fantástico, traz a esperança de que a cura é possível. Além disso, ao usamos neurônios semelhantes aos embrionários, mostramos que dá para fazer isso antes de os sintomas aparecerem.”

Os resultados promissores, porém, configuram o que é chamado no meio científico de “prova de princípio”. “Mostramos que a síndrome pode ser revertida. Mas reverter um cérebro inteiro, já formado, vai com certeza ser bem mais complexo do que fazer isso com neurônios numa placa de petri [recipiente usado em laboratório para o cultivo de micro-organismos]”, explica o pesquisador.

Entre as barreiras que impedem a aplicação prática imediata da descoberta está a incapacidade do IGF-1 de chegar ao alvo. “O fator, quando administrado via oral ou pela veia, acaba indo muito pouco ao cérebro. Existe uma barreira [hematocefálica] que proteje o cérebro, filtrando ingredientes essenciais e evitando um ataque viral, por exemplo. O IGF-1 é uma molécula grande, que acaba sendo filtrada por essa barreira”, afirma Muotri. “Temos de alterar quimicamente o IGF-1 para deixá-lo mais penetrante.” Além disso, tanto o fator quanto a gentamicina são drogas não específicas, portanto causariam efeitos colaterais tóxicos se aplicadas em tratamentos com humanos.
"É possível reverter neurônio autista para um estado normal, ou seja, o estado autista não é permanente",diz Alysson Muotri.
 
(Foto: cortesia UC San Diego)
Síndrome de Rett
O foco do estudo foi a chamada Síndrome de Rett, uma doença neurológica que faz parte do leque dos autismos. “Leque” porque o autismo não é uma doença única, mas um grupo de diversas enfermidades que têm em comum duas características bastante conhecidas: deficiências no contato social e comportamento repetitivo.
No caso dos portadores de Rett, há um desenvolvimento normal até algo em torno de seis meses a um ano e meio de idade. Mas então começa uma regressão. Além das características autistas típicas, neste caso bem acentuadas, eles vão perdendo coordenação motora e rigidez muscular.

Essa síndrome foi escolhida para o trabalho de Muotri, Carromeu e Marchetto porque tem uma causa genética clara – mutações no gene MeCP2 – e porque afeta os neurônios de forma mais acentuada, facilitando comparações e verificações de reversão.

“Talvez a implicação mais importante desse nosso trabalho é o fato de que os neurônios derivados de pessoas com autismo mostraram alterações independentemente de outros fatores. Isso indica que o defeito foi autônomo. Por isso, esse dado deve contribuir para reduzir o estigma associado a doenças mentais”, comemora Muotri. “Você não fica autista porque sua mãe não te deu o amor necessário ou porque seus pais foram ruins.”

21 de jul. de 2010

Autismo : antes da intervenção ....

Eu espero pelo dia no qual você sorrirá para mim, porque perceberá que existe uma pessoa decente e inteligente... pois eu tenho visto como as pessoas olham para mim, embora eu nada tenha feito de errado”.



“Eu estou cansado de negar quem eu sou. Eu não quero mais fazer isto, nem para mim, nem para as pessoas a quem amo. Mas, primeiro eu preciso conhecer, amar e aceitar quem eu sou. Devo encontrar a pessoa que cresce dentro de mim”.


Construa-me uma ponte

Eu sei que você e eu

Nunca fomos iguais.

E eu costumava olhar para as estrelas à noite

E queria saber de qual delas eu vim.

Porque eu pareço ser parte de um outro mundo

E eu nunca saberei do que ele é feito.

A não ser que você me construa uma ponte, construa-me uma ponte,

construa-me uma ponte de amor.



Eu espero pelo dia no qual você sorrirá para mim

Apenas porque perceberá que existe uma pessoa decente e inteligente

Enterrada profundamente em meus olhos caleidoscópios.

Pois eu tenho visto como as pessoas me olham

Embora eu nada tenho feito de errado.

Construa-me uma ponte, construa-me uma ponte,

E, por favor, não demore muito.



Vivendo na beira do medo,

Vozes ecoam como trovão em meus ouvidos.

Vendo como eu me escondo todo dia.

Estou apenas esperando que o medo vá embora.

Eu quero muito ser uma parte do seu mundo.



Eu quero muito ser bem sucedido.

E tudo o que preciso é ter uma ponte,

Uma ponte construída de mim até você.

E eu estarei junto a você para sempre,

Nada poderá nos separar.

Se você me construir uma ponte, uma pequena, minúscula ponte

De minha alma, para o fundo do seu coração.


                                                                                                    Mackean

 

Esse texto é  uma constante  na minha prática educativa e pedagógica no trabalho com crianças autistas.
Acredito que qualquer técnica, método au qualquer tipo de intervenção (médica, psicológica, pedagógica...) prescindem dessa ponte chamada amor. Não aquele amor piegas, nem permissivo mas, aquele amor genuíno, com responsabilidade, compromisso e abertura para as possiblidades que se apresentam no meio do caminho.
Sempre digo, plageando o poeta:  " No meio do caminho tinha uma pedra..." (apenas acrescento um complemento, uma pequena alteração ao poema). Respondendo : E daí? Adoro pedras.
Para mim as pedras são obstáculos que podem e devem sempre ser superados ou , talvez, quem sabe, apenas modificados...
Boa reflexão!
Judi Menezes

18 de jul. de 2010

autismo e intervençoes pedagógicas

 Continuando com alguns recortes do meu trabalho de conclusão de curso de Pós-Graduação, acho importante discorrer sobre a  história  do autismo ( sem esgotar o assunto), apenas com a intenção de que isso posso gerar uma reflexão sobre como a cultura afetou e afeta a visão que temos do autismo.

 AUTISMO: BREVE HISTÓRICO

Proveniente do grego autos que significa “eu mesmo”.
O termo foi usado como adjetivo pelo medico suíço Eugen Bleuler, em 1912, para descrever o comportamento de algumas pessoas posteriormente diagnosticadas como esquizofrênicas, as quais eram desapegadas de tudo, exceto de seu mundo interno.

Sigmund Freud também usou o termo, mas rapidamente ressaltou que autista não queria dizer o mesmo que narcisista, pois naqueles “a satisfação dos instintos independe parcial ou totalmente de outros indivíduos”. Freud não gostava nem um pouco da palavra “autista”, mas não esta claro por quê. Talvez ele se opusesse ao fato de que, no início dos anos 1920, alguns médicos começassem a usar a palavra para se referir a devaneios ou fantasias; Freud achava que o termo, se é que deveria ser usado, tinha de se relacionar a uma deficiência no comportamento social. É incrível como Freud já era perceptivo, tanto tempo atrás.

Antes de Leo Kanner, psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos, a palavra autista referia-se a um sintoma e não a uma síndrome. Embora muitas outras características do autismo viessem a ser introduzidas na literatura psiquiátrica nas décadas que se seguiram, a maioria das descrições de Kanner ainda continuam a ser relevantes na atualidade, evidenciando suas habilidades de observação. Isso é estranho, de acordo com a historiadora Chloe Silverman, uma vez que quase todas as descrições antigas de outros distúrbios mentais parecem pouco familiares e antiquadas hoje em dia (Silverman, C. & Herbert, M., 2003).

Kanner, já em 1943 argumentava que essas crianças eram essencialmente diferentes dos esquizofrênicos. Para ele, o distúrbio das crianças autistas não se parecia com a esquizofrenia, já que no autismo não eram evidentes as alucinações ou ilusões, e, além disso, a esquizofrenia raramente aparecia no inicio da infância (Kanner, L., 1943). No entanto, ironicamente, as observações de Kanner de 1949 sobre a relação entre autismo e esquizofrenia dificultariam a aceitação do autismo como diagnóstico consumado e comum.

Um número considerável de autistas foi diagnosticado como portador de “esquizofrenia infantil” ainda nos anos 1970, já que essa era a única categoria diagnóstica oficial da Associação Americana de Psiquiatria, que somente fazia menção à palavra “autista”. Nesse tipo de “esquizofrenia infantil” estavam incluídas pessoas com sintomas de autismo, especialmente o “isolamento” e o retardo mental. Kanner acreditava que o autismo, ou autismo infantil, como costumava chamá-lo, era uma síndrome distinta, mas se perguntava se essa condição, na infância, não era precursora da esquizofrenia, indicação, logo no inicio da vida, do que viria mais tarde.

Na pratica, os clínicos distinguiam o autismo da esquizofrenia pelo nome “autismo infantil” e, ocasionalmente, síndrome de Kanner, mas o termo oficial para o autismo ainda era “esquizofrenia”

Em seu artigo “Autistic Disturbances of affective Contact” (Disturbios autistas de contato afetivo), publicado em 1943, que se tornou amoso, Kanner descreve 11 crianças diferentes entre si, todas nascidas nos anos 1930, que não obstante, acreditava terem muito em comum, pois compartilhavam o que ele denominava “autismo infantil”. Dois dos 11 pacientes originais de Kanner haviam chegado até ele depois de terem sido diagnosticados como esquizofrênicos por outro médico (Kanner, L., 1943).

Como Kanner acreditava que seus pacientes tinham autismo desde o nascimento, ele se recusava a denominar uma das manifestações dessa condição de isolamento, pois, o isolamento não ocorria após uma atitude anterior participativa. Em outras palavras, as crianças “autistas” nunca haviam interagido com o mundo social. Kanner também não achava que a condição fosse a mesma de retardo mental, pois, após examinar as 11 crianças, percebeu que a maioria tinha inteligência normal ou acima dos padrões. Eram crianças dotadas de grande potencial cognitivo (Kanner, op.cit).

Foi realmente notável a habilidade de Kanner em encontrar traços comuns num grupo tão diverso de crianças; sua definição básica de autismo permanece válida atualmente, contudo, ele errou ao excluir varias crianças, as que sofriam de retardo mental ou epilepsia, do diagnóstico, por não achar que se encaixavam num padrão coerente. Kanner não achava que os autistas pudessem ser mentalmente retardados ou epilépticos, ainda que um de seus 11 pacientes originais fosse epiléptico..

Ele também cometeu um erro crucial que dificultou a aceitação do autismo como síndrome pelos psiquiatras. Kanner conclui seu artigo afirmando que o autismo é um distúrbio biológico. Como os psiquiatras poderiam dar ouvidos a isso?

Em primeiro lugar, as maiorias desses psiquiatras se formaram sob o pensamento psicanalítico da década de 1940, acreditando que quase todos os distubios mentais eram causados por transtornos psicológicos assim a hipótese de Kanner não tinha muitas probabilidades de ser aceita por eles.

Em segundo, os psiquiatras achavam que se a doença mental tinha sido causada por problemas biológicos ou genéticos, ela não era tratável, enquanto que as doenças psicogênicas, originadas por distúrbios psicológicos, sim, podiam ser tratadas pela psicoterapia, praticamente a única forma de tratamento na época.

Por outro lado, as chances de acreditarem que o autismo ou qualquer outra doença mental fosse intratável eram poucas, pois isso tornava a psiquiatria irrelevante

Assim, a resposta à questão “Kanner está realmente vendo um novo distúrbio?” tinha de ser respondida ao mesmo tempo com um “sim” e um “não”. Sim, tratava-se de um novo distúrbio porque ninguém jamais percebera que características tão variadas encaixavam-se num padrão único: Kanner deu-lhe um nome e transformou-o numa síndrome. Entretanto, ela não era nova, pois os sintomas provavelmente eram tão antigos quanto a humanidade.

O autismo é algo novo porque no século XX os distúrbios mentais foram descritos com maior precisão sendo diferenciados uns dos outros e com nomenclatura especifica. Porém, é possível pensar que o autismo já existia antes de ter um nome?

Com certeza sim, porém, não como um conceito próprio ou doença distinta, como já eram a epilepsia e o retardo mental, mas sempre existiram pessoas que atualmente poderíamos chamar de autistas. Ainda hoje o autismo existe sem ter um nome. Há culturas no planeta em que, além de não terem um nome para o distúrbio, sequer vêem os sintomas do autismo como patológicos. Há, por exemplo, as chamadas “crianças maravilhosas” ou Nit-ku-bom, do Senegal, e as crianças autistas da tribo Navajo do sudoeste Norte-Americano, que são vistas simplesmente como eternas crianças.

O conjunto de sintomas aos quais, nos dias de hoje, atribui-se ao autismo provavelmente já existe há muito tempo, mas não há como provar; e mesmo supondo que essas pessoas existissem, ninguém sabe quantas eram.

Talvez a melhor forma de explorar a idéia do autismo na historia seja perguntando se, caso pudéssemos viajar no tempo ate o século XIX , ou antes, encontraríamos crianças que se encaixariam nos critérios atuais do diagnostico. Sendo difícil, se não impossível, estabelecer diagnósticos a partir de evidências históricas, vale a pena discutir brevemente alguns indícios do autismo no passado distante, ainda que somente para observar que os aspectos do que atualmente denominamos autismo existiam muito antes da invenção da psiquiatria moderna.

Judi Menezes

15 de jul. de 2010

Autismo e Intervenções educativas

O tema  abordado em minha monografia foi o Autismo e as intervenções educativas, onde consegui conciliar a minha experiência como professora de uma sala "especial" com crianças autistas e a busca de informações e teorias que pudessem esclarecer, subsidiar e ampliar o trabalho realizado.
Sendo assim resolvi partilhar, aos poucos, nesse espaço algumas considerações, questionamentos e descobertas teóricas desse  humilde trabalho de pesquisa bibliográfica.
Desejo que possa ajudar ou, quem sabe, suscitar reflexões ou novos questionamentos principalmente para os professores que , as vezes, se deparam com essa demanda "estranha" como como diz Sinclair: "“Ser autista não significa não ser humano. Significa ser estranho. Significa que o que é normal para outras pessoas não é normal para mim, e o que é normal para mim não é normal para outros. De alguma forma eu estou terrivelmente mal equipado para sobreviver neste mundo, como um extra-terrestre abandonado sem um manual de instruções".

Autismo e educação - algumas considerações


Ao planejarmos todo e qualquer processo educacional é indispensável levar em consideração a história do indivíduo que se pretende educar. Sabermos quem é ele, e em qual contexto social ele está inserido nos dão bases significativas para o processo de escolarização. Como afirma Glat em sua pesquisa sobre mulheres com deficiência mental, o homem é antes de tudo, um ser social, e por assim dizer, está submetido às influências deste contexto que antecede o seu próprio nascimento.


São através destas primeiras experiências que ocorrerão o acesso à cultura e serão desenvolvidos e apreendidos os processos que regem as aquisições biológicas e sociais nos quais, conseqüentemente, ocorrerá a noção de identidade, de pertencimento ao grupo e de desenvolvimento de papeis tão importantes na formação do individuo. Dificuldades em vivenciar essas relações, ainda que pequenas, podem provocar dificuldades de aprendizagens muitas vezes essenciais à própria existência.

O Transtorno Autista caracteriza-se principalmente pela dificuldade de se relacionar com o outro desde o principio da vida. Os comprometimentos sociais decorrentes de tais características acabam afetando em diferentes níveis o desenvolvimento da linguagem e da aprendizagem de regras e padrões sociais, pois estes são desenvolvidos e aprendidos na integração com o grupo.

O autismo é hoje conhecido como um nome, mas a compreensão dele como conceito para a população em geral, e mesmo entre alguns profissionais, é ainda muitas vezes vaga e repleta de incompreensões e mitos. É muito importante que aumente a conscientização da sociedade em relação ao espectro do autismo.

Frente ao exposto, indaga-se: Que informações temos sobre esse transtorno? O que representa a Educação de alunos portadores do Transtorno Autista? Existem práticas educativas que atendam as necessidades “diferentes e específicas” do autismo? Quais são as técnicas usadas na educação dos autistas?

As perguntas foram escolhidas com o objetivo de investigar e entender o trabalho dos professores que têm o papel de educar essas crianças portadoras de necessidades especiais. Acreditamos que é necessário dar ao público (profissionais, pais e população em geral) uma sólida informação sobre esse Transtorno.

A importância e o desafio que a educação de alunos portadores do Transtorno Autista representada para pais e profissionais de Educação sendo necessário  esclarecer que o transtorno autista pode ser encontrado em todo o mundo e em famílias de qualquer configuração racial, étnica e social.


Judi Menezes