17 de set de 2010

INTERVENÇÕES EDUCATIVAS E AUTISMO ( cont.)

Considerando que educar pressupõe a consideração de quem são os sujeitos participes desse processo, que se assume como educador, qual a finalidade do ato de educar, para quem é dirigido o ato de educar, quais os espaços de participação criados nesse ato? Particularmente, na situação diferenciada que o ato de ensinar representa quando indivíduos em situações especificas encontram-se envolvidos no mesmo, acentua-se a necessidade da consideração de tais diversidades.

Pergunta-se, então, qual é o significado de educar um aluno com deficiência mental? Ou um aluno com deficiência visual? Ou um aluno com autismo? Quais espaços devem ser criados e continuamente considerados quando é deflagrado o processo de ensino aprendizagem com esses sujeitos e suas diversidades?
Partindo desses questionamentos procuramos estudar e/ou conhecer algumas teorias que propiciam melhor entendimento e compreensao do caminho a ser trilhado.

1 -  TEORIAS AFETIVAS



  • TEORIA DE HOBSON
Hobson criticou a atuação de autores psicanalíticos e analíticos, implicados no estudo do autismo, os quais inferiam seus conceitos a partir das intervenções terapêuticas que realizavam com crianças autistas, utilizando a tradicional metodologia psicoterapêutica, desconsiderando as condições peculiares da vida psíquica dessas crianças (Hobson, P., 1989). Começou a formular, ainda na década de 1980, os fundamentos das teorias afetivas atuais sobre o autismo. Suas conceituações aproximam muito de uma perspectiva psicanalítica de relações objetais.


Nas suas formulações iniciais, ele considerou que :


1. As crianças autistas apresentam falhas constitucionais nos componentes de ação e reação necessários para o desenvolvimento das relações objetais, que envolvem afeto com as outras pessoas;


2. Falta às crianças autistas a coordenação da experiência e do comportamento sensoriomotor e afetivo, característico da vida normal intrapessoal, assim como da interpessoal;


3. Nessa patologia existem déficits no reconhecimento das outras pessoas como portadoras de sentimentos, pensamentos, intenções e desejos próprios;


4. Existem déficits na capacidade de abstrair, sentir e pensar simbolicamente.


Hobson, nos seus trabalhos mais recentes, postula que as relações interpessoais são o “berço” do pensamento. Acredita que para o desenvolvimento da vida mental, antes da linguagem, existe algo mais básico, o engajamento social com o outro, mais primitivo e com poder inigualável como potencial formativo, que inicia o ser humano na linguagem. Tal engajamento social se desenvolve em pequenos passos, mas repentinamente dá surgimento aos processos de pensamento, os quais revolucionam a vida mental. A ligação que pode reunir a mente de uma pessoa com a mente de alguém mais, especialmente ligações emocionais, são as verdadeiras ligações que iniciam o ser humano no pensamento. As bases do pensamento encontram-se no ponto no qual os primatas ancestrais começaram a entrar em contato emocional, um com o outro, da mesma forma que os bebês entram em contato com seus cuidadores.


Autistas são seres humanos para os quais o mútuo engajamento com alguém mais é parcial ou ausente. A falta de conexão emocional com o autismo é devastadora por si, mas também traz implicações sobre a capacidade de pensar da criança. As raízes do pensamento estão no que ocorre em virtude da experiência individual de uma pessoa com alguém mais. As raízes do autismo podem vir a ser encontradas no que deixa de acontecer entre as pessoas.


Hobson insiste no postulado de que as formas de engajamento pessoal vêm antes do pensamento. As crianças com autismo não têm o contato intersubjetivo com outra pessoa e isso causa o impedimento para a vida imaginativa. Elas não conseguem imaginar a si mesmas presentes nas mentes dos outros. “Eles não parecem se experimentar nos corações e nas mentes dos outros”.


Se a maior motivação para aprender linguagem seja afetar a mente dos outros, talves não seja surpreendente que muitas crianças com autismo jamais falem. Se alguém deseja sentir-se com alguém mais para registrar que se está conectado psicologicamente, e se tal conexão é uma parte necessária da compreensão do que existe para ser partilhado e para ser comunicado, então a falta de contato intersubjetivo pode prejudicar toda a função do significado da linguagem, exceto talvez em alguma forma incipiente relacionada como o conseguir algo de alguém. Muitas vezes se observa o diálogo nas crianças com autismo, mas falha a flexibilidade da troca interpessoal e falha o ajustamento mutuo.


Para o autor o pensamento surge mediante os movimentos na orientação mental. Movimentos na orientação mental são uma tipo especial, pois ocorrtem por intermédio da resposta da criança a outra pessoa. São movimentos que começam antes do pensamento, eles permitem que uma criança de 1 ano de idade capte a natureza de perspectiva da mente, no sentido de que diferentes pessoas podem considerar de modos diferentes objetos e eventos. Tais movimentos na orientação mental permitem que a criança compreenda como os significados de uma pessoa podem ser ancorados em símbolos. Pessoas com mentes têm suas próprias experiências subjetivas e elas podem dar significado as coisas. Estes significados estão ancorados em símbolos. Alguém pode usar símbolos somente se posssui o tipo de vida emocional que conecta com e mundo e com os outros. As crianças com autismo têm a falta de algo essencial ao desenvolvimento humano. Algo essencial para o funcionamento simbólico criativo. Elas ficam aquém do padrão que leva ao uso de símbolos criativamente. Algumas delas têm certas funções intelectuais preservadas do tipo de atividade que caracteriza os computadores.


Hobson não considera preciso o termo “teoria da mente” aplicado à crescente compreensão, por parte da criança, da vida mental das pessoas. A teoria da mente sugere que uma criança teoriza sobre a natureza dos sentimentos, desejos, crenças e intenções. Não é teorizando que a criança começa a compreender os aspectos da vida mental. Questões interesssantes e criticas podem ser formuladas sobre o tipo de conhecimento que é adquirido nos primeiros anos de vida. Como a criança percebe que uma pessoa é um tipo de coisa que tem uma mente? Como ela começa a perceber que uma mente é composta de pensamentos, sentimentos etc. são diferentes dos objetos que se pode pegar?


Hobson e equipe, numa série de experimentos empregando grupos de controle, testaram a hipótese de que indivíduos com autismo apresentam deficits no processamento da informação afetiva. Em um desses estudos (Hobson, 1986), crianças com e sem autismo foram testadas na sua habilidade em combinar desenhos e fotografias de expressões faciais com as imagens correspondentes em fitas de videotapes. As crianças com autismo demonstraram grandes dificuldades nessa tarefa, sugerindo um deficit na capacidade de reconhecimento de diferentes emoções. Em um outro estudo, os achados foram que as crianças autistas tenderam a classificar pilhas de fotografias a partir de características não-faciais (por exemplo, pelas roupas), enquanto crianças sem autismo o fizeram com base nas expressões afetivas, e também mostraram comprometimento na capacidade de combinar expressões faciais com gestos e postura congruentes.
A segurança dos relacionamentos de apego, continua afirmando Hobson, influencia a capacidade posterior da criança de se engajar com outra pessoa em um nível mental. A capacidade da criança de pensar sobre pensamento depende do modo como seus cuidadores se realcionam com ela.

Deixo um breve pensamento e o desejo, sempre o desejo , de que possa gerar algum tipo de reflexao.
" “Eu estou cansado de negar quem eu sou. Eu não quero mais fazer isto, nem para mim, nem para as pessoas a quem amo. Mas, primeiro eu preciso conhecer, amar e aceitar quem eu sou. Devo encontrar a pessoa que cresce dentro de mim”. (Mackean)

Judi Menezes