5 de mar de 2011

AUTISMO E GESTALT


Fechado com a porta entreaberta
FECHADO COM A PORTA ENTRE ABERTA
                                                            
Trabalhei numa sala "especial" com  crianças com Autismo , na realidade foi um desejo, uma escolha!  Acredito que o principal desafio de um professor ao se deparar com uma criança autista seja a falta de resposta para tantas indagações; a falta de informação; a falta de um espaço para troca de experiências e a insegurança gerada pelo  “diferente”, a frustração diante de um trabalho que aparentemente não progride, a ansiedade gerada por transitar num tempo diferenciado onde o retorno, as vezes, se faz de forma bem sutil quase imperceptível. Ou seja, o olhar e todos os sentidos e percepcoes devem estar bem aflorados e atentos a um universo bem particular de um autista. Acredito que enxergar uma criança autista não é o mesmo que interagir com ela no mundo social. Não importa o que os especialistas mundialmente reconhecidos digam, é necessário que a criança autista tenha visibilidade. Visibilidade, não apenas garantias constitucionais que assegurem os direitos da criança a educação. O Sistema Escolar não enxerga essa criança, pois não adianta garantir uma vaga numa sala e continuar tratando a criança como objeto e fonte de repulsa, não lhe permitindo ser nem enxergada e nem compreendida. E ainda dizem que os autistas têm cegueira mental! Sempre questionei quem realmente tem essa cegueira. Muitas vezes desconfio, humildemente, que esta cegueira é inerente às autoridades no assunto, aos especialistas de gabinete, aos políticos de plantão.
Aprendi  que é muito complicado, para quem convive com uma criança autista, descrevê-la para pessoas que se encontram em posições de autoridade no assunto, pois as mesmas geralmente tentam fazer um enquadramento teórico e técnico, muitas vezes frio, distante e calculista daquela criança em questão.
Conversei com alguns especialistas, estudiosos dedicados ao estudo do autismo e percebi que a grande preocupação era reduzir todo o processo educativo a uma mera escolha teórica e metodológica. Apesar disso percebi que na comunidade escolar em geral e, principalmente para os estudantes “normais”, estes mostram-se mais compreensivos e solidários com crianças autistas quando têm o conhecimento necessário sobre o que vem a ser o autismo.
O que ficou muito claro e visível é que, com um programa escolar e um ambiente educacional adequados, essa criança autista seria academicamente mais capaz do que os especialistas acham. E que muitas técnicas são perfeitamente aplicáveis e apresentam ótimos resultados. Sinceramente, fiz muitas adequações das mesmas, até porque o sistema de ensino e a escola, não estavam nem um pouco preparados, preocupados ou interessados naquelas crianças. Estavam apenas cumprindo seu papel social e uma exigência Governamental, além do que, recebendo uma verba que nunca foi aplicada em favor daquelas crianças para quem as verbas deveriam ter sido destinadas. É claro, para justificar a aplicação das verbas, no final do ano contrataram os especialistas, para me dizer o que fazer com aquelas crianças.Já era tarde! Havia percebido que existia entre esses teóricos e especialistas uma preocupação com a confirmação dos seus pressupostos teóricos. Não estou defendendo nenhuma teoria em especial ate porque, através da minha necessidade de saber, de conhecer o Autismo lia quase tudo . Deparei-me com esse texto e fiquei encantada, com a forma como a questão do contato foi abordada, pois ate então o maior esforço dos especialistas era me convencer de que isso tudo era uma grande perda de tempo. Não sou psicóloga, não entendo muito sobre gestalt, ate porque a psicanálise sempre foi o meu objeto de curiosidade! Mas, sem perceber estava acreditando e  praticando algumas coisas ( como professora, toda a leitura era voltada para a melhoria da pratica pedagógica) que a teoria gestaltica  aponta :   “o terapeuta parte dos seus próprios sentimentos e usa o seu próprio estado de espírito como um instrumento terapêutico... Ele ou ela deve estar sintonizado coma pessoa com a que ele ou ela está em contato, se tornando, de certa forma, uma caixa de ressonância para o que quer que aconteça entre ele ou ela e o paciente” , eu poderia dizer que neste caso nós nos tornamos nossas próprias ferramentas. Isto envolve nos aproximarmos da criança com uma atitude aberta, receptiva e aceitadora (sentia a critica velada quando assumia determinada postura com meus alunos autistas). Também envolve uma vontade de nos engajarmos em um encontro em que nós desejamos abrir a nós mesmos para confrontação, em que nós oferecemos nossos próprios selfs para o outro. Por isso eu sempre tenha desejado trabalhar com essas crianças!!!
Para quem trabalha com crianças e adolescentes, é muito importante conhecer as teorias da personalidade. Penso que o texto abaixo pode ser muito útil e esclarecedor porque baseada na teoria do contato e do self, a autora considera o autismo como um problema de contato e fronteira no qual a criança está aprisionada na fronteira. Assim sendo, podemos pensar sobre uma abordagem gestáltica do autismo. Como um resultado de sua experiência com crianças autistas, foi  apresentada  uma explanação do desenvolvimento da criança utilizando uma perspectiva gestáltica.
O artigo 'e extenso , por isso vou dividi-lo em duas partes.
Vale a pena!!! Boa leitura.
Paz e Luz!!
Judi Menezes


Autismo na Teoria Gestalt Em direção a uma Teoria Gestalt da Personalidade   (PARTE I)


Introdução


Eu sempre fui fascinada por teorias da personalidade, as diferentes formas em que nós podemos explicar como o desenvolvimento de uma criança se desdobra, como ele se torna estruturado como um sujeito, e como ele se torna uma pessoa. Aparte das próprias teorias, eu me maravilhei com os gênios destes que as desenvolveram: Freud, Klein, Lacan, Dolto, Wallon, Piaget, Mahler, Spitz.
Como eles conseguiram criar estas maravilhosas teorias é verdadeiramente um mistério intransponível. Sim, é claro, eles o fizeram através da observação, mas eu me pergunto o que guiou as suas observações e, além disso, como eles conseguiram transformar os dados em ricas especulações.
Em última análise, a resposta não é tão complicada assim. Eles criaram categorias básicas que funcionaram como um eixo, como um baú do qual os conceitos secundários brotaram, e de onde eles deram forma para suas observações sobre o desenvolvimento infantil. Mas sempre, todas as vezes, eles foram guiados por estas categorias básicas.
Por outro lado, por um longo tempo eu fiquei encantada em ver que a Gestalt Terapia tinha desenvolvido uma série de técnicas para trabalhar com crianças e que particularmente Violet Oaklander (1969) tem feito uma contribuição sem paralelos para a terapia infantil. Entretanto, ninguém desenvolveu uma base teórica para explicar o desenvolvimento infantil, e assim foi necessário nos voltarmos para outros pontos de vista.
Neste artigo, eu tentarei explicar o desenvolvimento infantil do ponto de vista da psicoterapia gestáltica. Para fazer isto eu deverei usar alguns dos conceitos básicos da Gestalt, tais como fronteiras de contato, teoria do self, awareness, e o ciclo de experiência.
Também, eu irei ilustrar estes conceitos através de uma descrição de meu relacionamento com, e observação de, uma criança autista.
As Fronteiras de Contato Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 481) em um capítulo apropriadamente chamado “The Structure of Growth” [A Estrutura do Crescimento] desenvolveram o conceito gestáltico fundamental de fronteiras de contato. Por fronteiras de contato nós queremos dizer o que separa e conecta duas pessoas. Um começa onde o outro termina. Fronteiras de contato nos separam e nos protegem. Existem tanto fronteiras físicas quanto psicológicas. Nossa fronteira física é nossa pele, mas nossas fronteiras psicológicas são mais complexas; elas são estruturadas e modificadas ao longo das nossas vidas.
De acordo com Perls et al., nossa vida é moldada pelas experiências. A primeira é nascer. Daquele momento em diante, nós integramos as experiências e a forma como nós reagimos a elas. Cada uma destas experiências, tais como existir, emergir de nós mesmos, estabelecer contato, permanecer; constrói e desconstrói formas, é importante no nosso desenvolvimento do self.
Este processo de criação e destruição dos relacionamentos pode ser fluído ou infectado por obstáculos que irão moldar a experiência da criança diante de dadas situações, assim como as formas com as quais ela irá eventualmente confronta-las. Experiências ocorrem no limite entre o organismo e seu ambiente, e o contato é a awareness sensorial, assim como os comportamentos motores e as emoções.
Em acordância com os existencialistas, eu proponho que ao invés de “organismo” nós usemos o conceito de “pessoa”. O termo organismo refere-se a uma origem biológica e mesmo sendo o homem, efetivamente, um organismo, ele é muito mais do que isso. Particularmente considerando a Gestalt-Terapia como uma teoria humanista, a palavra pessoa será muito mais apropriada.
Quando a criança nasce, ela é capaz de percepção sensorial, assim como respostas motoras e emocionais, como ele começa a reagir ao seu ambiente. Esta responsitividade sensorial é alguma coisa que ela divide com outros animais. O que, então, a distingue e a torna um ser humano?
Como postulado por Hegel (1947) e Buber (1979), um homem se torna tal no momento em que ele:


- reconhece a si mesmo, como uma imagem e através da linguagem,


- alcança consciência de sua própria existência,


- é reconhecido por alguém mais,


- e, então, estabeleceu um relacionamento com outro ser além de si próprio
Todas as colocações acima são o que em Gestalt Terapia nós chamamos de contato.


Em Direção a uma Teoria do Desenvolvimento


No processo de desenvolvimento da criança nós podemos distinguir dois momentos: (1) primeiro momento que nós podemos chamar de pré-pessoa, isto é, a criança como um ser biológico, mas não tendo ainda todas as características que são necessárias para considerá-la uma pessoa no sentido mais amplo do termo, e (2) o momento quando ela pode ser chamada uma pessoa.
Durante a fase pré-pessoa, a criança é consciente do seu ambiente, de algumas de suas necessidades básicas, e ela pode comunica-las, mas ainda lhe falta a capacidade de ser consciente de si mesma como uma entidade separada e, assim sendo, também lhe falta uma clara consciência do outro. Para usar um termo de Buber, ele é incapaz de diferenciar o Eu do Tu.
Para finalmente alcançar isto a criança atravessa um processo em sua awareness que pode ser explicado usando as categorias das fronteiras do contato, awareness, funções do self, ciclo de experiência e mecanismos de defesa.
Fronteiras de contato estão presentes a partir do momento do nascimento. Todavia, elas ainda são lábeis e frágeis; a criança pode começar a se tornar consciente dos seus arredores mas não pode diferenciar-se completamente deles. De acordo com Mahler (1959; todos os números de página se referem a edição mexicana de 1987), a mãe é o primeiro “Eu” auxiliar da criança.
A criança nasce com uma consciência, e assim sendo ela pode começar a reconhecer seu mundo, tanto internamente quanto externamente. Através da função id do self, a criança reconhece as suas necessidades, apetites e impulsos, e através de uma função motor insipiente ela busca a satisfação para recuperar equilíbrio e prazer. Contato é a awareness do campo e a resposta motora dada. Em suma, contato é um ajustamento criativo do organismo ao ambiente. A função da fronteira de contato é crescer através do ajustamento criativo.

Ph. D.Guadalupe Amescua, Ph. D., o Centro de Estúdios e Inestigacion Guestalticos, Xalapa, México e autora do livro “The Magic of Children: Gestalt Therapy with Children, Mexico, 1995, Cuba, 1997.









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