11 de mar de 2011

Paradoxo do nosso tempo


..." Sonhei... e ... "
foto: sonhei...e....
Autor(a) José Canelas



“Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, conduzimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.

Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.
Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.
Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimos melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a nos apressar e não a esperar.
Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas comunicamo-nos menos. Estamos na era do ‘fast-food’ e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.
Esta é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas “mágicas”.
Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Uma era que leva esta carta a você, e uma era que te permite dividir essa reflexão ou simplesmente clicar ‘delete’.
Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre.
Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer.
Lembre-se de dizer ”eu te amo” a (o) companheira (o) e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame… Ame muito.
Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de lá de dentro.
O segredo da vida não é ter tudo que você quer, mas amar tudo que você tem!”

Paradoxo do Nosso Tempo – Georgi Carli


Será que estamos amando tudo que temos, será que valorizamos as pessoas que estão ao nosso lado sempre nos dando força? Ou será que tudo é tão corrido que nem temos mais tempo de dar carinho, afeto a quem amamos? Será que estamos nos permitindo viver? Nascemos com tudo o que 'e preciso para  viver . Você já prestou atenção numa criança quando toca você?


Você já reparou? Se você está chorando e uma criança pequena vê, ela se aproxima de você. Não sabe dizer muita coisa, não sabe convencer você a parar de chorar, mas ela põe a mão sobre a sua. Já sentiu o toque? Nunca ninguém mais o tocará do mesmo jeito, como uma criança — ela sabe tocar 
Posteriormente, as pessoas ficam frias, duras. Elas tocam, mas nada flui das mãos delas. Quando a criança toca você — a ternura da mão dela, a suavidade, a mensagem... ela derrama ali todo o seu ser.
 
Boa reflexão!!Excelente final de semana!
Paz e luz!
Judi













8 de mar de 2011

Crítica sobre o CARNAVAL - Jornalista Rachel Sheherazade



Todos temos o livre arbítrio para concordar ou não!!Acredito que o mais importante nesse comentário seja instigar o pensar, refletirmos um pouco mais, mesmo que você não concorde com o que foi dito, reflita que a grande questão que permeia essa critica não esteja unicamente voltada ao carnaval... Sei que muitas pessoas ficaram revoltadas com as colocações. Como sempre as pessoas reagem de forma infantil e ou pessoal, ficando contrariadas e não se permitem refletir sobre o que esta sendo falado ou escrito, Permita-se refletir um pouco para poder discordar, fundamentando suas idéias...



Vou deixar você com o direito ao livre pensar.


Boa reflexão!!!


Eu, particularmente, concordo com tudo que foi exposto.


Parabenizo você amiga!!! Sei que não preciso fazer nenhum comentário sobre sua pessoa conheço o ser humano ( mãe, profissional, amiga...) que você é!
Beijo
Judi Menezes

7 de mar de 2011

2a Jornada de Neurociências da Educação





As dificuldades escolares apresentadas pelas crianças brasileiras, atingem porcentagens alarmantes, tanto na leitura e escrita como na matemática.
Um fenômeno dos novos tempos é a TV e o computador, que se bem utilizados poderiam ser instrumentos fantásticos (vide programas infantis Canadenses), porém, estão se tornando perigosos, pois o mau uso e os interesses econômicos levam a grandes riscos para as crianças. Outro agravante é o Estado, que não enxerga ou finge que o problema não existe, atribuindo a situação a fatores às vezes não relevantes. As estratégias de ensino não são discutidas de forma adequada.
O que fazer?
Talvez a melhor maneira seja democratizar as discussões em que profissionais das diversas áreas envolvidas no processo ensino/aprendizado, num mesmo ambiente troquem idéias para mudar este panorama.
Surgindo então o que chamamos de Neurociências da Educação, discutindo como o cérebro aprende e como melhor ensinar.
A 2ª JORNADA DE NEUROCIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO DE SÃO JOSE DO RIO PRETO, discutirá o assunto com profissionais do mais alto nível.
Venham participar
Visite o site: http://www.jornadadeneurociencias.com.br/
Jose Alexandre Bastos

Acredito que vale a pena verificar o programa.
Judi Menezes

6 de mar de 2011

Autismo sob uma Pespectiva Gestáltica (PARTE II)



Considerando a definição e características do autismo dadas por muitos autores que trabalham sobre este assunto, autismo é conceituado como um déficit cognitivo social severo (Castanedo, 1997). Eu tentarei descreve-lo de uma perspectiva gestáltica, utilizando conceitos que eu tenho enfatizado através deste trabalho.
Autismo pode ser considerado um problema ao nível da fronteira das fronteiras de contato e o self. Eu acredito que possa ser afirmado que o autismo é um endurecimento das fronteiras de contato. Como Perls et al. (1951) disseram; “A experiência ocorre no limite entre o organismo e seu ambiente, primariamente na superfície da pele e outros órgãos motores e sensoriais” e eles continuam “O objetivo da psicologia é: 1. Experiência é o contato final, funcionar ao nível das fronteiras de contato e seu ambiente. 2. Toda função humana é uma interação no campo organismo/ambiente, social, cultural, animal e física”(p.3).
Isto envolve pensar mais em termos de um processo, não apenas do contato que acontece entre, mas também a forma como a experiência ocorre, que é dado em termos de um relacionamento chamado crescimento.
Baseado nesta perspectiva eu considero o autismo um “enrigecimento” dos limites das fronteiras de contato que bloqueia a comunicação do organismo com o seu ambiente, deixando a criança isolada, no sentido que sua capacidade para estabelecer relacionamentos é largamente diminuída. Como um resultado seu crescimento e desenvolvimento como ser humano é interrompido, e seu potencial se torna estagnado em uma variedade de formas.
Se a Gestalt Terapia considera interação como a função humana principal, então quando estas crianças param de interagir elas são também deixadas de fora do campo humanizante, que leva-as a se relacionar com pessoas como se fossem objetos que são para serem manipulados de acordo com suas necessidades. Se nós considerarmos o autismo nesta perspectiva, nos oferece a possibilidade para conceber uma forma de intervenção.
A teoria gestáltica nos compele a procurar por um meio para reestabelecer, ou mais precisamente estabelecer, contato com estas crianças. Concordando com Zinker (1977), Polster e Polster (1973) afirmam, “o terapeuta parte dos seus próprios sentimentos e usa o seu próprio estado de espírito como um instrumento terapêutico... Ele ou ela deve estar sintonizado coma pessoa com a que ele ou ela está em contato, se tornando, de certa forma, uma caixa de ressonância para o que quer que aconteça entre ele ou ela e o paciente” (p.34), eu poderia dizer que neste caso nós nos tornamos nossas próprias ferramentas. Isto envolve nos aproximarmos da criança com uma atitude aberta, receptiva e aceitadora. Também envolve uma vontade de nos engajarmos em um encontro em que nós desejamos abrir a nós mesmos para confrontação, em que nós oferecemos nossos próprios selves para o outro.
Quando nós nos aproximamos de uma criança cujas fronteiras de contato foram diminuídas, nossas palavras rebatem e voltam, como se de um espelho. Como um resultado, nós podemos nos descobrir inventando sintomas do nada, do silêncio, da frustração e da incerteza. Uma questão que se torna importante é como fazer estas barreiras flexíveis, como fazer aquele “enrijecido” projetivo começar a ceder terreno.
Para Polster e Polster (1973), “A fronteira do ser humano – a fronteira do Eu – é determinada por todo o espectro de suas experiências de vida e pelas habilidades que podem ter sido adquiridas para assimilar novas e intensas experiências” (p.34). Neste sentido é entendido que as fronteiras de contato são também moldadas pelas experiências da criança as vezes através de um processo de introjeção.
Introjeção é um modo genérico de interação entre o indivíduo e seu ambiente, e mais especificamente para a criança, Polster e Polster (1973) dizem:
Uma criança pequena aceita qualquer coisa que ele não experiência como imediatamente nocivo. Ele aceita comida de qualquer forma que lhe for oferecida ou ele a cospe... Quando ele começa a mastigar ele aprende a reestruturar o que ele ingere, mas antes disso ele apenas engole suas impressões sobre o que acontece no mundo.
Desta primeira necessidade de tomar as coisas como elas chegam ou se livrar delas sempre que for possível, é derivada sua notória necessidade para confiar em seu ambiente (pp. 80-81).
Para uma criança autista o ambiente exterior é experimentado como nocivo, então ele tem que se defender dele. Ele introjeta apenas umas poucas coisas a um passo muito lento. Assim seu desenvolvimento é mais lento que aquele de outras crianças. Ele não confia em seu ambiente, então muito pouco atravessa suas barreiras. Por que as coisas que ele introjeta como uma forma de aprendizado de experiências vividas são mínimas, o desenvolvimento da criança é empobrecido, e as experiências que são introjetadas não são facilmente assimiladas.
Para uma situação introjetada ser assimilada, precisa ser elaborada, mastigada, isto é, deve passar por um processo de integração interna. Entretanto, para isto acontecer deve existir uma certa distância entre o objeto e o sujeito, entre o que é introjetado e própria pessoa. Para uma criança autista não existe tal distância. Não existe uma clara diferenciação do Eu e do Tu; entre os objetos internos e externos.
Para pensar sobre o autismo desta maneira nós precisamos de um sistema de referência que nos oferecerá uma possibilidade de intervenção. Está claro que irá ser necessário ajudar a criança a se tornar separada, a diferenciar a si mesma do que é e o que não é ela mesma, onde ela começa onde ela termina; onde suas fronteiras de contato estão, e o que nós devemos fazer para ajuda-la a distanciar-se dos objetos para que ela possa ser apta a trabalhar com sua introjeções que se tornaram coaguladas, presa as paredes, como outras criaturas autistas tais como insetos.
Nós sabemos que a um nível linguístico uma criança autista fica confusa a respeito do uso de pronomes. Isso não é coincidência. É na verdade um reflexo de sua impossibilidade de diferenciar a si mesma como um “Eu”. Esta forma de trabalhar com uma criança autista é exemplificada pelo meu trabalho com Olmo.
A mãe de Olmo fez um grande trabalho neste sentido, porque antes de eu encontra-lo ela já tinha conseguido que sua criança fizesse clara diferenciação dos pronomes. Ele fazia poucos erros quando falando sobre si mesmo ou sobre os outros, quando usando “eu” ou “você”. Apenas ocasionalmente ele ainda fazia erros verbais. Por exemplo, quando nós nos encontramos pela primeira vez, ele disse: “You invites you home” [mantive a versão original devido as diferenças gramaticais entre o inglês e o português], quando ele queria me pedir para convida-lo para minha casa. Ele tinha problemas estruturando a sentença correta.
Durante nossas sessões eu as vezes insistia em perguntar o que ele queria. A separação começa quando o indivíduo se torna consciente [aware] de suas necessidades internas e se torna apto a expressa-las, separando a siexpressa-las, separando a si mesmo do desejo do outro, mesmo do que os outros querem dele.
Naturalmente, porque Olmo não era apto a atuar por si mesmo, ele sempre estava sob a vigilância de uma pessoa mais velha, então ele sempre esteve próximo de sua mãe ou para a América, seu cuidador, que fez um grande trabalho com ele. Ela sempre o manteve à vista e sempre segurou sua mão na rua.
Deixando o consultório, eu levei ele na rua e perguntei a ele onde ele queria ir. A escolha não foi difícil para ele. Ele imediatamente disse que queria ir ao parque coletar insetos. No inicio eu obedeci ao seu desejo. Como o tratamento progrediu eu disse a ele que nós estávamos indo a uma loja para que ele pudesse comprar alguma coisa. Primeiro, ele tinha que decidir o que ele queria comprar. Na rua eu perguntei a ele onde a loja era, para que ele pudesse encontrá-la sozinho. Quando nós chegamos lá, eu permaneci do lado de fora, assim ele teve que ir sozinho e pedir o que ele queria. No inicio foi difícil e eu tive que entrar e ajuda-lo. Então eu perguntava a ele para liderar o caminho de volta ao consultório. Ele certamente sabia o caminho.
Em outra ocasião ele foi passar um final de semana na minha casa. Eu tenho feito isso diversas vezes porque eu acredito que com crianças como Olmo não é suficiente limitar o trabalho ao consultório. É necessário ter diferentes ambientes e dimensões que ofereçam a elas novos desafios e experiências, e para ajudar a assimilá-las.
Em frente da casa existe um parque que é uma grande atração para Olmo. Os primeiras poucas vezes que ele foi a minha casa eu fui com ele para o parque e ele caçava insetos. Ele o batizou “o parque do grilo”. Eu certifiquei-me que ele sabia o caminho de volta para a casa bem e mesmo deixo ir sozinho em uma ocasião. Entretanto, ele tinha que me deixar saber que ele queria ir, para ter permissão. Com este experimento nós alcançamos uma separação de desejos, e ao mesmo tempo criamos regras e limites.
Eu também disse a ele quanto tempo ele poderia ficar no parque, apesar que eu sabia que ele não tinha um relógio para manter controle do tempo e provavelmente não entendia o conceito de tempo. Todavia, foi uma forma para começar a introduzi-lo ao mesmo. Eu disse a ele que ele tinha que estar de volta em meia hora, quando seria hora de comer. Ele foi e voltou sozinho.
Vale a pena mencionar que mesmo confiando nele, eu também estava preocupada com a sua reação. Quando ele retornava existia uma espetacular expressão em sua face. Ele estava inaugurando a sua liberdade, a possibilidade de se tornar separado.
Na manhã seguinte ele acordou cedo, e quando eu não ouvi nenhum som, eu fui ver onde ele estava. Eu fui surpreendida em descobrir que ele não estava na casa, mesmo estando a porta e portão da frente fechados. Ele tinha saído através da janela e então tinha conseguido se esgueirar pelas barras do portão para ir ao parque. Quando eu o vi ele estava em seu caminho de volta, usando a mesma rota para voltar para dentro da casa. Eu estava surpresa por sua inteligência e habilidade para conseguir o que queria. Tudo isto foi necessário para ensina-lo a perceber quando ele queria sair. Agora a mãe de Olmo o manda para pegar coisas no armazém, e ele vai facilmente.
No autismo, atenção ou é difusa ou excessivamente focada, como quando a criança concentra toda a sua atenção em um simples estímulo. Pode ser auto-gerado como balançar o seu corpo para trás e para frente, ou um objeto que parece como um prolongamento dela mesmo. Este estímulo captura toda a sua atenção de tal forma que a criança é vazia sem ele. Ela faz isso porque significa tudo para ele; é sua proteção, sua segurança.
Pode ser dito que sua awareness é centrada precisamente no limite de suas fronteiras de contato. Nós não podemos dizer que existe uma relação interna ou awareness, porque não existe introspecção ou processo imaginativo. O mesmo é verdade externamente. Novamente, a ideia é, estimular awareness através do processo terapêutico, fazê-lo circular, recuperando a capacidade para ir de um objeto para o outro, do interior para o exterior.
Outra característica de awareness é seu relacionamento com a linguagem, isto é, a capacidade para expressar simbolicamente o que é percebido. Uma criança autista é também debilitada neste sentido, porque ela não pode falar sobre coisa, particularmente quando isto requer uma certa distância, implicando uma dimensão de espaço-tempo.
Quando eu perguntei a Olmo sobre seus insetos, sobre pega-los ou qualquer coisa relacionada a eles, ele não respondia, e eu percebi que ele podia ou ele não podia. Eu também percebi que sua captura de insetos é uma atividade que ele engajar completamente sozinho. Ele não permitia mais ninguém participar. Quando eu tentei intervir, pegando borboletas e colocando-as em jarros, ele me impediu de fazê-lo.
Uma vez eu fui com ele em uma piscina, para trabalhar em aprender um jogo de bola. Repentinamente, ele saiu da piscina, atraído por algumas lindas borboletas que estavam voando em volta em um campo. Ele achou uma jarra e concentrou toda a sua atenção em pega-las. Ele se aproximava delas lentamente, quase sem se mover, completamente absorto; ele lentamente esticava sua mão e, se ele não tinha sucesso, começava tudo de novo. Uma criança pequena se aproximou dele, atraída pelas ações de Olmo. Olmo ficou furioso e pediu para criança ir embora, empurrando-a, até. A criança insistiu em olhar as borboletas e Olmo teve um grande acesso de raiva; ele se atirou no chão gritando até que a criança foi embora. Então ele ficou absorto em sua ocupação prévia, como se nada tivesse acontecido.
Agora Olmo concentra sua atenção em outros estímulos também. Embora ele ainda seja obsessivo sobre eles, é um passo importante, porque as opções de sua awareness estão se movendo e se ampliando.
Ele também começou a ser capaz de introspecção. Em certos momentos ele pode falar sobre si mesmo, sobre o que ele tem feito, sobre as coisas que ele gosta, e mesmo sobre seu passado, se perguntado.

Nada
Como eu previamente escrevi, o problema com crianças autistas é precisamente o sentimento de não existência (Tustin, 1992). Isto é por que eles agarram esses objetos que são um prolongamento de seus próprios corpos, que os representam e lhes permitem uma ilusão de existir com o exterior.
Em O Ser e o Nada Jean Paul Sartre reflete sobre a não-existência e, ao mesmo tempo, sobre aquilo que, através do ser, faz a existência possível. Ele diz: “Nada pode ser concebido fora do ser ou como originando no Ser... apenas aquilo que é pode ser aniquilado, mas primeiro tem que ser” (p.58). Então, podemos dizer que uma criança autista não existe? Ou melhor, que existe alguma coisa que não permite que elas se reconheçam como serem, como humanos?
É importante chamar a criança autista para dentro do ser a partir do nosso próprio ser. Para fazer isso nós devemos criar um lugar para ela, um lugar de confiança onde ela pode começar a dar seus primeiros passos dentro do ser, em se tornar totalmente humana. Ele terá que viajar pela estrada de construir um corpo e distinguindo uma coisa da outra. Neste sentido, o terapeuta cria as condições necessárias, metaforicamente falando:
O psicoterapeuta assopra a pequena chama da psique até que esta se inflame, e aquele constante assoprar significa compreender a fonte da insegurança destas crianças e prover a elas uma situação dentro da qual elas podem começar a estabelecer ligações mentais com um terapeuta como se fosse uma ama de leite. Nós chamamos isto de transferência infantil. Para que isto se estabeleça deve existir um moderado uso de objetos autísticos e figuras predominantemente sensoriais (Tustin, 1992, p. 131).

Não e Por que

No início Olmo não se opunha a ninguém, ao menos não diretamente. Na verdade a forma que a criança autista tem para expressar sua afirmação é sua aderência ao objeto autístico, porque é o que lhe permite continuar existindo. Todavia, não é uma afirmação completa, porque não existe uma diferenciação clara entre ser e não-ser. Para cita Sartre novamente, ele diz que “isto é suficiente para demonstrar que o não-ser não vem as coisas através da negação: ao contrário, a negação é condicionada e sustentada pelo não-ser” (Sartre, 1945, p.47). A criança autista não intervém subjetivamente; ela se apaga, ela espera nada dos outros e, dessa forma, ela não pratica a função de negação. Ela não brinca, também.
Neste processo de individuação existe um precipício que se abre entre a mãe e a criança, marcado pela ausência. Esta falta da nascimento as necessidades, desejos e expectativas. Uma criança autista não sente esta separação. Sua privação tem sido tão devastadora que a criança não se permite experimentar por completo a ausência, que, para ela, é como um “buraco negro” de “não-existência” (Tustin, 1992). Ele cobre esta falta da melhor forma que ela pode construindo para si mesma uma armadura, uma carapaça e se tornando obsessivamente ligada a objetos.
Olmo não dizia não. A primeira vez que eu o vi ele estava calmamente sentado na sala de espera. Mesmo quando peguei sua mão ele ainda não tinha tomado conhecimento de mim. Como uma regra geral ele não fazia nenhuma das coisas que eu pedia a ele para fazer, não para se opor a mim, mas simplesmente porque ele estava operando em outra freqüência, imerso em seu próprio mundo.
Como ele começou a emergir daquela carapaça, ele começou a desenvolver a capacidade para negar. No início de cada sessão eu perguntava a ele o que ele queria fazer. Eu abri um espaço para o seu desejo. Ele foi para a gaiola do tucano e tentou abrir a porta. Eu dei voz ao seu desejo. “Você quer abrir a porta do tucano. Você quer que o tucano saia.” Ele foi até a água e pegou um copo. “Você quer água. Você está com sede e então você quer água.”
Agora, após um ano, Olmo abertamente expressa o que ele não quer. Ele grita com toda a sua força. “Deixe-me sozinho! Eu não quero!” Ele expressa seus desejos da mesma maneira: “Eu quero levar esta tartaruga pra casa. Você vai me dar esta tartaruga. Eu quero leva-la para casa.” Ajudando-o a expressar seus desejos, a dizer não, a se afirmar através da negação; e a sempre dar a ele uma escolha, tem sido um importante processo na terapia.
No processo de desenvolvimento, uma criança que incorporou uma capacidade para a negação entra no estágio do “por que”. Interrogar os outros significa estar presente e perguntando sobre seu ser. Acima de tudo, significa a possibilidade de estabelecer ligações significantes e relacionamentos, ir além das barreiras do ego. Perguntar é mostrar interesse, fazer contato.
A criança autista não pergunta ou responde questões. Não existe interesse. Sua linguagem ecolalica não espera nada do outro, ou ao menos assim parece. Mas esta é a barreira que nós devemos atravessar, tentando não ser pegos na repetição. Nós devemos agarrar a importância destas repetições: Repetir, perguntar de novo. Se nós pensarmos nas barreiras de contato como um círculo engolfando a criança, a repetição será como ir girando e girando ao redor do perímetro do círculo, mas sem nada indo ou vindo através dele.
Olmo repete coisas. Uma vez, quando eu estava prestando atenção concentrada a sua linguagem e ao que eu estava fazendo com ela, eu percebi como eu estava me tornando enredada, precisamente girando e girando ao redor do perímetro, e, obviamente, eliminando a possibilidade de ir com ele, de estabelecer algum tipo de contato. Isto me fez parar para pensar e achar um caminho para fazer nossos diálogos circularem. Originalmente, quando Olmo repetia alguma coisa eu repetia também, tentando afirmar o que ele havia dito, mas ele apenas continuava repetindo de novo e de novo. “Eu não devo pegar insetos, não é? Eu não devo pegar insetos, insetos não devem ser pegos, sim, deixe-os em paz, eu não devo pegar insetos.” E repetia uma dessas frases, mas nós podíamos continuar com isso indefinidamente. Quando eu percebi o meu eu erro eu comecei a introduzir questões, pensando exatamente sobre a forma que as crianças fazem, e sobre como as ajuda a estabelecer um relacionamento e uma busca por significado.
Posteriormente, quando ele começava a repetir, eu introduzia uma questão: “Porque eu não devo pegar insetos?” eu certamente não estava esperando uma resposta; ele continuaria com a sua repetição, mas, da mesma forma, eu continuaria com as perguntas e respostas. “Você não deve pegar insetos porque seus olhos vão ser infectados. Porque mais você acha que não deve pega-los?”. Ele continuava a repetindo e eu continuava explicando. “Outra razão para não pegar insetos é porque eles irão morrer. Eles precisam estar na grama para comer.”
Gradualmente Olmo desenvolveu uma capacidade para perguntar ou responder questões. Isso também o ajudou a falar de uma forma mais espontânea sobre si mesmo. É curioso que tem vezes quando assim que ele me vê ou alguma outra pessoa a primeira coisa que ele irá fazer é perguntar: “Como você está? Como você se sente?” Eu estou ciente que em um certo grau suas perguntas são ainda puramente automáticas, mas existe também alguma coisa se movendo dentro dele, porque quando ele faz estas perguntas ele ri.
Para uma criança uma questão é alguma coisa mais profunda do que nós percebemos. As vezes a insistência é tediante; ou podemos achar as questões constantes da criança fascinante. Todavia, essa é outra maneira pela qual a criança se constrói. Sartre (1945) diz:
Em cada interpretação nós nos colocamos diante de alguém que nos interroga. Toda interrogação pressupõe um ser que pergunta um ser que é perguntado. Não é o relacionamento primitivo do homem com o ser em si mesmo; ao contrário, permanece dentro dos limites deste relacionamento e o supõe. Por outro lado, nós interrogamos o ser interrogado sobre alguma coisa. Este sobre alguma coisa que eu interrogo o ser, participa da transcendência daquele ser: Eu interrogo o ser sobre a forma que ele é ou sobre seu ser... Isto é, sobre um antecedente de pré-interrogatória familiaridade com o ser eu espero deste ser uma revelação sobre seu ser ou sua forma de ser. (pp. 40-41).


Capacidade para Brincar

Winnicott já tinha nos alertado que a ausência do brincar em uma criança é uma indicação de conflito. Em crianças autistas existe uma completa ausência da capacidade de brincar, assim como da capacidade de imaginar.
Para uma criança, brincar é uma atividade através da qual ela cria a imagem de seu corpo e um relacionamento com os outros. Também, brincar é uma forma de criar situações que a criança atravessa na vida que podem implicar algum conflito para ela. Isto implica o desenvolvimento da fantasia e, acima de tudo, o estabelecimento de uma ordem simbólica.
Brincar também acontece na interseção das dimensões do espaço e tempo. “Um espaço potencial entre o infante e a mãe... assimilando experiências que o confrontam a) ao mundo interior (relacionado com associações psicossomáticas) e b) à realidade exterior.” (Winnicott, 1969, pp. 64-65)
Como um princípio, quando uma criança não brinca isso parece ser uma evidência de um sério conflito interior. A ausência do brincar pode ser vista de diferentes níveis. Por exemplo, crianças com déficit de atenção, com ou sem hiperatividade, estabelecem jogos, mas eles são muito superficiais e/ou breves. No consultório elas irão pegar uma coisa e larga-la, e então uma após a outra. Não existe permanência.
Oaklander (1969) considera que crianças com déficit de atenção têm um problema ao nível das fronteiras de contato. Elas não prestam atenção, porque elas não podem fazer contato com a realidade. Em outros casos as crianças brincam automaticamente sem um grande conteúdo imaginativo ou fantasioso ou consciência do terapeuta.
Olmo não brincava. Algumas vezes ele arrumava pequenos animais de fazenda ao redor de todo o perímetro da sala, ou ele arrumava-os em ordem impecável na caixa de areia, mas se eu pegasse um e tentasse brincar, ele protestava energicamente e o colocava de volta no seu lugar.
No inicio ele era incapaz de brincar com uma bola e eu tinha que encorajar e ensinar. Nesta ocasião, ele não apenas aprendeu a jogar bola, mas no nosso caminho de volta para casa, ele iniciou um jogo de palavras no qual eu devia advinhar o seu nome, então ele dava um diferente e gargalhava.
A mulher que atualmente trabalha na casa de Olmo e cuida dele tem uma criança 2 anos mais nova. Ela brinca com ele, e algumas vezes participa na caça aos insetos. Eu acredito que isto será de grande ajuda para Olmo.
A iniciação do brincar é um dos principais desafios terapêuticos; não é uma tarefa fácil. Winnicott acreditava que terapia é a superposição de duas zonas de brincadeira: a da criança e a do terapeuta. Neste caso, é essencial que o terapeuta saiba como brincar e se envolva nos jogos.
Com Olmo nós temos realizado jogos que lidam com a delimitação de superfícies, um jogo que tem como objetivo não apenas construir um corpo, mas também delimitar suas fronteiras de contato, diferenciar a si mesmo de mim, distinguir o Eu do Tu. Este jogo tem evoluído; Olmo está gradualmente se tornando mais consciente de seu próprio corpo e do encontro de corpos. Ele pede para receber cócegas, expressando suas necessidades, seus desejos e sua vontade, e ao mesmo tempo, ele também quer fazer cócegas.
O que ainda permanece para ser feito é alcançar um jogo onde ele possa engajar a sua imaginação, a capacidade para gerar idéias e a expressão de emoções. O mais próximo que nós algum dia estivemos da expressão de emoções aconteceu uma vez quando ele estava desenhando e pediu que nós desenhássemos sóis: um sol feliz, um sol triste, um sol zangado. Mas ele ainda não podia se identificar projetivamente no desenho.

Conclusão

Como a Gestalt Terapia é uma abordagem jovem, existe muito a ser feito no campo da psicopatologia e também para desenvolver uma teoria da personalidade. Muitas vezes o ponto inicial é o comportamento anormal tal como o autismo. Trabalhando com Olmo me ensinou muitas coisas sobre o desenvolvimento infantil.
Olmo agora tem 12 anos de idade. Após três anos de tratamento ele é uma criança que não mais condiz com a diagnose de autismo. Ele brinca com outras crianças e tem fantasias, ele participa de conversações com outras pessoas e dá a sua opinião, ele reconhece e expressa seus sentimentos, ele vai a escola e mesmo diz que tem uma namorada, ele entende conceitos abstratos, futuro e passado. Ainda existe trabalho a ser feito com ele, mas ele trilhou um longo caminho. Ele me ensinou muito.


Referências
Amescua, G. (1995), La magia de los Niños, México, CEIG.Buber, M (1979), You and I, Argentina, Nueva Visión.Canstanedo, C. (1997), Psychological Basis of Special Education, España, CCS.Mahler, M. (1959), Human Symbiosis and the Vicissitudes of Individuation. Mexico, J.Mortiz (1987).Oaklander, V. (1969), Windows to our Children. Chile, Cuantro Vientos (1982).Perls, Hefferline, Goodman (1951), GEstatl, Therapy, Excitement and Growth in the Humam Personality. New York, The Gestalt Journal (1994).Polster & Polster (1973), Gestalt Therapy. Argentina, Amorrortu. (1991).Sartre, J. P. (1945), El ser y la Nada. España, Losada. (1989).Tustin, F. (1992), The Protector Shield in Children and Adults. Argentina, Amorrortu.Winnicott, D. (1969), Playing and Reality. Buenos Aires, Argentina.Zinker, J. (1977), Creative Process in Gestalt Therapy. Argentina, Paidos (1979);