1 de jun de 2012

Ah, o amor...




Amor é uma palavra que não se encontra muito nos textos budistas. O amor (compaixão) sobre o qual falam, não é uma emoção, pelo menos não do tipo que estamos acostumados. Certamente não é o que definimos de amor "romântico", que tão pouco tem que ver com amor. É bom investigar o que é o amor e como está vinculado à nossa prática, pois os dois frutos de nossa prática são a sabedoria e a compaixão.


As vezes, lemos os antigos textos e formamos uma imagem da prática que não tem relação alguma com a compra do pão na padaria. Ao fazer daimoku elevamos nossa consciência até atingir a sabedoria do estado de buda, porém como sabemos possuímos intrinsecamente estados transitórios de vida. Portanto, ao conhecer sua própria realidade no estado de buda, a emoção-pensamento some naturalmente. Mas se você pensa que eliminou o pensamento ilusório, em vez de esclarecer como a emoção-pensamento se derrete, a emoção-pensamento surgirá de novo, como se você tivesse cortado o talo de uma folha de grama ou o tronco de uma árvore, deixando a raiz viva.

Muitas pessoas pensam de modo equivocado que a prática é eliminar os pensamentos ilusórios. É claro que os pensamentos são ilusórios, porém, como ele diz, se você os corta em vez de "esclarecer como a emoção-pensamento se derrete", você aprenderá pouco. Muitas pessoas passam por experiências de iluminação, contudo, porque não esclareceram como a emoção-pensamento se dissolve, os amargos frutos da emoção-pensamento serão seu alimento na vida diária.
Todo esse emaranhado cármico acontece muitas vezes porque estamos condicionados às mesmas sensações (a nível orgânico mesmo).

Sem exceção, estamos todos presos a emoções-pensamentos, mas em graus muito variáveis.

Estritamente falando, os relacionamentos aplicam-se a todas as coisas: a xícara, o tapete, as montanhas, as pessoas. No entanto, em termos da palestra de hoje, estamos nos referindo a relacionamentos que envolvem pessoas, porque parece que sempre são os causadores das maiores dificuldades. Se não estivemos nos escondendo dentro de uma caverna pelos últimos vinte anos, estaremos envolvidos numa relação com alguém. Nela, sempre existe um amor genuíno e um amor falso. O quão genuíno é nosso amor algo que depende de como praticamos com o amor falso, que se alimenta das emoções-pensamentos com expectativas, esperanças e condicionamentos. Quando não vemos o vazio da emoção-pensamento, esperamos que nossa relação nos faça bem. Enquanto ela alimentar nossa imagem de como as coisas supostamente são, pensamos que é uma grande relação.

Contudo, quando vivemos em íntima ligação com alguém, essa espécie de sonho não tem muitas chances de sobreviver. Conforme o tempo vai passando, o sonho se desfaz sob o impacto da pressão e descobrimos que não podemos manter nossas belas imagens dos parceiros e de nós. Claro que gostaríamos de manter a imagem idealizada que temos de nós mesmos. Gostaria de acreditar que sou uma boa mãe: paciente, compreensiva, sábia. (Se, pelo menos, meus filhos concordassem comigo, seria tão bom!) Porém, esse absurdo das emoções-pensamentos dominam nossas vidas.

Principalmente no amor romântico, na realidade a emoção-pensamento sai de controle. Espero do parceiro que corresponda à minha imagem idealizada de mim mesma. Quando ele deixa de agir assim (o que não tardará muito), digo: "Acabou a lua-de-mel. O que há de errado com ele? Está fazendo todas as coisas que eu não suporto". E fico me perguntando porque sou tão infeliz. Meu parceiro não me convém mais, ele não reflete a imagem onírica que alimento a meu respeito. Ele não promove meu conforto e meu prazer. Nenhuma exigência emocional tem alguma coisa que ver com amor. Quando o quadro se desmantela em pedaços — e isso sempre acontece num relacionamento íntimo — esse "amor" se transforma em hostilidade e discussão.

Portanto, se estamos numa ligação estreita, viveremos, de tempos em tempos, alguma dor, porque nenhuma relação jamais nos preencherá por completo. Não há meios de vivermos alguma vez com alguém que nos agrade de todas as formas que desejamos, incessantemente. Por conseguinte, como enfrentarmos tais decepções? Devemos sempre praticar a aproximação cada vez maior de nossa dor, de nossa decepção, de nossas esperanças perdidas, de nossas imagens estilhaçadas. Essas vivências são em essência não-verbais. Devemos observar o conteúdo do pensamento até que se torne neutro o suficiente a ponto de podermos entrar na experiência direta e não-verbal da decepção e do sofrimento. Quando sentimos de modo direto o sofrimento, pode começar a dissolução da falsa emoção e emergir a verdadeira compaixão.

Cumprir nossos votos com respeito é a única coisa que podemos fazer por outra pessoa. Quanto mais praticamos ao longo dos anos, mais desenvolveremos uma mente aberta e amorosa. Quando o desenvolvimento estiver completo (o que significa que não existe nada sobre a face da Terra que julguemos) esse é o estado da iluminação e da compaixão. O preço que temos de pagar é essa prática de toda uma vida em cima de nosso apego às emoções-pensamentos, que formam a barreira ao amor e à compaixão.
( livro Fundamentos do Budismo)


Sem comentários! Apenas deixo para o seu deleite um vídeo que acho fantástico e minha declaração de amor a você, a vida , a todos os seres...
Paz e luz!!
Judi Menezes