18 de jul de 2010

autismo e intervençoes pedagógicas

 Continuando com alguns recortes do meu trabalho de conclusão de curso de Pós-Graduação, acho importante discorrer sobre a  história  do autismo ( sem esgotar o assunto), apenas com a intenção de que isso posso gerar uma reflexão sobre como a cultura afetou e afeta a visão que temos do autismo.

 AUTISMO: BREVE HISTÓRICO

Proveniente do grego autos que significa “eu mesmo”.
O termo foi usado como adjetivo pelo medico suíço Eugen Bleuler, em 1912, para descrever o comportamento de algumas pessoas posteriormente diagnosticadas como esquizofrênicas, as quais eram desapegadas de tudo, exceto de seu mundo interno.

Sigmund Freud também usou o termo, mas rapidamente ressaltou que autista não queria dizer o mesmo que narcisista, pois naqueles “a satisfação dos instintos independe parcial ou totalmente de outros indivíduos”. Freud não gostava nem um pouco da palavra “autista”, mas não esta claro por quê. Talvez ele se opusesse ao fato de que, no início dos anos 1920, alguns médicos começassem a usar a palavra para se referir a devaneios ou fantasias; Freud achava que o termo, se é que deveria ser usado, tinha de se relacionar a uma deficiência no comportamento social. É incrível como Freud já era perceptivo, tanto tempo atrás.

Antes de Leo Kanner, psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos, a palavra autista referia-se a um sintoma e não a uma síndrome. Embora muitas outras características do autismo viessem a ser introduzidas na literatura psiquiátrica nas décadas que se seguiram, a maioria das descrições de Kanner ainda continuam a ser relevantes na atualidade, evidenciando suas habilidades de observação. Isso é estranho, de acordo com a historiadora Chloe Silverman, uma vez que quase todas as descrições antigas de outros distúrbios mentais parecem pouco familiares e antiquadas hoje em dia (Silverman, C. & Herbert, M., 2003).

Kanner, já em 1943 argumentava que essas crianças eram essencialmente diferentes dos esquizofrênicos. Para ele, o distúrbio das crianças autistas não se parecia com a esquizofrenia, já que no autismo não eram evidentes as alucinações ou ilusões, e, além disso, a esquizofrenia raramente aparecia no inicio da infância (Kanner, L., 1943). No entanto, ironicamente, as observações de Kanner de 1949 sobre a relação entre autismo e esquizofrenia dificultariam a aceitação do autismo como diagnóstico consumado e comum.

Um número considerável de autistas foi diagnosticado como portador de “esquizofrenia infantil” ainda nos anos 1970, já que essa era a única categoria diagnóstica oficial da Associação Americana de Psiquiatria, que somente fazia menção à palavra “autista”. Nesse tipo de “esquizofrenia infantil” estavam incluídas pessoas com sintomas de autismo, especialmente o “isolamento” e o retardo mental. Kanner acreditava que o autismo, ou autismo infantil, como costumava chamá-lo, era uma síndrome distinta, mas se perguntava se essa condição, na infância, não era precursora da esquizofrenia, indicação, logo no inicio da vida, do que viria mais tarde.

Na pratica, os clínicos distinguiam o autismo da esquizofrenia pelo nome “autismo infantil” e, ocasionalmente, síndrome de Kanner, mas o termo oficial para o autismo ainda era “esquizofrenia”

Em seu artigo “Autistic Disturbances of affective Contact” (Disturbios autistas de contato afetivo), publicado em 1943, que se tornou amoso, Kanner descreve 11 crianças diferentes entre si, todas nascidas nos anos 1930, que não obstante, acreditava terem muito em comum, pois compartilhavam o que ele denominava “autismo infantil”. Dois dos 11 pacientes originais de Kanner haviam chegado até ele depois de terem sido diagnosticados como esquizofrênicos por outro médico (Kanner, L., 1943).

Como Kanner acreditava que seus pacientes tinham autismo desde o nascimento, ele se recusava a denominar uma das manifestações dessa condição de isolamento, pois, o isolamento não ocorria após uma atitude anterior participativa. Em outras palavras, as crianças “autistas” nunca haviam interagido com o mundo social. Kanner também não achava que a condição fosse a mesma de retardo mental, pois, após examinar as 11 crianças, percebeu que a maioria tinha inteligência normal ou acima dos padrões. Eram crianças dotadas de grande potencial cognitivo (Kanner, op.cit).

Foi realmente notável a habilidade de Kanner em encontrar traços comuns num grupo tão diverso de crianças; sua definição básica de autismo permanece válida atualmente, contudo, ele errou ao excluir varias crianças, as que sofriam de retardo mental ou epilepsia, do diagnóstico, por não achar que se encaixavam num padrão coerente. Kanner não achava que os autistas pudessem ser mentalmente retardados ou epilépticos, ainda que um de seus 11 pacientes originais fosse epiléptico..

Ele também cometeu um erro crucial que dificultou a aceitação do autismo como síndrome pelos psiquiatras. Kanner conclui seu artigo afirmando que o autismo é um distúrbio biológico. Como os psiquiatras poderiam dar ouvidos a isso?

Em primeiro lugar, as maiorias desses psiquiatras se formaram sob o pensamento psicanalítico da década de 1940, acreditando que quase todos os distubios mentais eram causados por transtornos psicológicos assim a hipótese de Kanner não tinha muitas probabilidades de ser aceita por eles.

Em segundo, os psiquiatras achavam que se a doença mental tinha sido causada por problemas biológicos ou genéticos, ela não era tratável, enquanto que as doenças psicogênicas, originadas por distúrbios psicológicos, sim, podiam ser tratadas pela psicoterapia, praticamente a única forma de tratamento na época.

Por outro lado, as chances de acreditarem que o autismo ou qualquer outra doença mental fosse intratável eram poucas, pois isso tornava a psiquiatria irrelevante

Assim, a resposta à questão “Kanner está realmente vendo um novo distúrbio?” tinha de ser respondida ao mesmo tempo com um “sim” e um “não”. Sim, tratava-se de um novo distúrbio porque ninguém jamais percebera que características tão variadas encaixavam-se num padrão único: Kanner deu-lhe um nome e transformou-o numa síndrome. Entretanto, ela não era nova, pois os sintomas provavelmente eram tão antigos quanto a humanidade.

O autismo é algo novo porque no século XX os distúrbios mentais foram descritos com maior precisão sendo diferenciados uns dos outros e com nomenclatura especifica. Porém, é possível pensar que o autismo já existia antes de ter um nome?

Com certeza sim, porém, não como um conceito próprio ou doença distinta, como já eram a epilepsia e o retardo mental, mas sempre existiram pessoas que atualmente poderíamos chamar de autistas. Ainda hoje o autismo existe sem ter um nome. Há culturas no planeta em que, além de não terem um nome para o distúrbio, sequer vêem os sintomas do autismo como patológicos. Há, por exemplo, as chamadas “crianças maravilhosas” ou Nit-ku-bom, do Senegal, e as crianças autistas da tribo Navajo do sudoeste Norte-Americano, que são vistas simplesmente como eternas crianças.

O conjunto de sintomas aos quais, nos dias de hoje, atribui-se ao autismo provavelmente já existe há muito tempo, mas não há como provar; e mesmo supondo que essas pessoas existissem, ninguém sabe quantas eram.

Talvez a melhor forma de explorar a idéia do autismo na historia seja perguntando se, caso pudéssemos viajar no tempo ate o século XIX , ou antes, encontraríamos crianças que se encaixariam nos critérios atuais do diagnostico. Sendo difícil, se não impossível, estabelecer diagnósticos a partir de evidências históricas, vale a pena discutir brevemente alguns indícios do autismo no passado distante, ainda que somente para observar que os aspectos do que atualmente denominamos autismo existiam muito antes da invenção da psiquiatria moderna.

Judi Menezes

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