21 de mar de 2011

Notas sobre a palestra “Conselhos para os casais”

Encontrei esse texto por acaso, não sei se o acaso existe! Enfim, achei muito interessante e parabenizo o Gustavo  Gitti por ter postado os fragmentos da palestra com o Lama Padma Samtem.
O texto foi dividido em duas partes (leitura extensa)! Boa reflexão!
delicada
http://br.olhares.com/delicada_foto4441644.html
Seguem algumas notas filtradas por minha visão confusa das coisas. Quase não adicionei nada ao que foi dito. Ainda assim, já peço desculpas ao Lama Samten por colocar um pouco de sua palestra aqui de modo cortado, sem o contexto de todos os ensinamentos, sem sua energia, presença e bom humor. Talvez isso seja uma falha grave, mas eu arrisco.
Com o lama brinca muito, coloquei um “;-)” ao fim dos tópicos que foram ditos em tom de brincadeira. Abaixo, deixo um gostinho do que foi  o momento:

O problema da “bóia gêmea”

•As relações podem ser construídas na Roda da Vida (entre identidades, movidas por emoções perturbadoras), mas não precisam ser assim.
•Chagdud Tulku Rinpoche dizia que há algumas etapas pelas quais todos passam nos relacionamentos amorosos: (1) a pessoa não está, mas deseja ficar, apaixonada; (2) encontrou a “alma gêmea” (etapa maravilhosa de 3 meses); (3) descobre as negatividades do outro (3 anos); (4) diz “O que aconteceu? Onde errei”; (5) a relação entra em dissolução; e (6), enfim, a relação entra em sua etapa mais longa, a etapa pós-fim.
•Quando encontramos nossa alma gêmea (“Parece que já nos conhecemos há muito tempo!” ou “Nós fomos casados em outra encarnação!”), devemos nos perguntar: “OK, mas como foi antes? Qual foi o motivo do fim? Algo aconteceu, não?”. ;-)

•Há pessoas mais lúcidas que sabem da impermanência e por isso dizem “Menos!” quando recebem um elogio como “Você é perfeito para mim!”. E dizem “Menos!” também quando, algum tempo depois, ouve “Você é um monstro!”. ;-)

•Somos seres livres com predisposições e características flutuantes. Se nossa união se baseia nesses aspectos, corremos o risco de não mais agir de certo modo e ter de ouvir de nosso parceiro: “Mas eu me casei com você só por isso!”. ;-)

•Todas as características do outro vem com um prazo de validade que nunca olhamos.

•Somos como 2 bóias colocadas juntas em um mar revolto: depois de um tempo acabam uma no Oceano Pacífico e outra no Atlântico.

•O lama brinca: será que existiria mesmo uma “bóia gêmea”?

•Se casamento fosse bom, por que haveria testemunha? Por que juiz? E por que o juiz não sorri? Ele convive direto com isso e sabe como a coisa se desdobra… Por que assinar algo? ;-)

A saída pela meditação

•O lama diz que até então falou da tragédia e que explicará sobre como fazer a coisa funcionar direito. E então brinca: “Sempre me esqueço dessa segunda parte… Como é mesmo?”. ;-)

•De forma muito aberta, pergunta a todos: “A solução deve vir sem repressão, correto? Sem artificialidade, concordam? Sem disciplina, estão todos de acordo?”. Precisamos transitar para outra linguagem, mas isso não pode ser apenas mental. É um processo do coração, no nível de energia.

•Na prática da meditação em silêncio, descobrimos uma região livre. Nós levantamos e sentimos a artificialidade das identidades. Nós podemos existir e fazer correr a energia sem identidades, naturalmente. Não precisamos abandonar nossa vida, nosso trabalho, as relações todas. O fechamento ou fuga é outro equívoco. Precisamos apenas trocar de base, alterar o processo de relação com tudo ao nosso redor.

•Sem o mínimo de estabilidade interna, nós sempre seremos movidos pelos outros.

•O lama sugere a prática da meditação de Metta Bhavana (bhavana é “cultivo” e “metta” significa “amor”). Olhar cada ser com as seguintes aspirações: que ele possa encontrar a felicidade e as causas da felicidade, que ele possa se livrar do sofrimento e de suas causas, que ele se libere de seus condicionamentos e fixações, que olhe com lucidez para tudo, que possa trazer muitos benefícios aos seres ao seu redor e que sua energia e alegria venha disso.

•Ao fazer isso com todos, lentamente vamos trocando a base das relações. Trocamos “Que ele me ame” por “Que ele seja feliz”. Não “Que ele seja feliz COMIGO!”. Apenas “Que ele seja feliz”. Isso com nossos ex-maridos, filhos, amigos, inimigos, sogras…

•No processo convencional, temos relações aflitivas. Os outros desejam que nosso amor seja confirmado sempre. Nós também precisamos de provas o tempo todo. Há perseguição. Ligações obsessivas no celular. Fazemos checagens, testes, vivemos com medo e insegurança constantes.

•Temos de olhar e nos alegrar com as qualidades dos outros. Fazemos isso naturalmente com aqueles amigos dos quais temos orgulho. Basta que expandamos isso a todos.

•De todas as definições de amor, eis uma sugestão budista: amor é a capacidade de ver qualidades positivas no outro, nos alegrarmos e agirmos para seu florescer. Não só vemos sementes, mas umedecemos raízes para que o outro se torne mais virtuoso e feliz.

•Já a compaixão não tem nada a ver com dó ou pena. A compaixão surge quando dissociamos a pessoa de seu obstáculo, o ser livre da negatividade que está manifestando. Ninguém olha para alguém com gripe e diz: “Aquele ali é o gripado, tem um nariz que escorre, etc”. ;-)

“As relações são para sempre”

•Quando devemos acabar com a proximidade? Quando não há crescimento, quando a relação não promove o desenvolvimento das qualidades positivas do casal. Quando um tranca o outro.

•Ainda assim, uma separação não é um corte. A relação sempre continua, de outra forma. Apenas foi introduzida uma distância. A prática de Metta Bhavana deve continuar sempre. De fato, é pela prática que às vezes decidimos pelo distanciamento.

•Nós temos o hábito de tratar as relações de modo diferente: uma coisa é namoro, outra é amizade, outra é família… Mas são todas relações. Nós nos relacionamos igualmente com todos, porém é impossível ser próximo de todos, “arquitetonicamente” impossível. Portanto, é natural que surja o casal, uma relação de intimidade que possibilite trocas mais profundas, sexo, etc. Porém, a diferença é de grau, não de tipo ou qualidade.

•Como as relações são todas iguais, nossa prática deve ser a mesma. Metta Bhavana em qualquer direção. A generosidade brota naturalmente sem precisar ser dita. As 10 qualidades positivas começam a surgir. Nossa moralidade não é convencional ou normativa. Ela vem da visão lúcida.

•Com essa prática, as relações se tornam fonte de sabedoria. São completamente satisfatórias e plenas, pois nossa energia não mais flutua.

•Pegue o exemplo de uma prática de generosidade. Você dá um iPod ao outro. Se o iPod quebrar, o outro sofre pois a alegria está vinculada a um objeto. Mas nada quebra seu ato de dar. A alegria que vem do simples oferecer é permanente, não flutua, independe de resultados, não se perturba. Se, ao contrário, seu ato é feito esperando por uma recompensa, isso chama o sofrimento. É só o outro não gostar e nós perdemos a alegria!

•Nós somos consumidores. Consumimos os outros, consumimos a natureza. Descartamos pessoas, descartamos recursos naturais. Não teremos chance se não invertemos essa relação.
                                                                                                                                       por Gustavo Gitti

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